quarta-feira, 14 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Kaká x Kfkf
Kaká x Kfouri, que coisa chata! É como dois times que jogam pra empatar. Só que neste caso os dois jogam pra ganhar. E pior, a torcida vibra. Em maior numero nas arquibancadas, de Bíblia, faixas e sentimento de liberdade nas mãos, estão os evangélicos – costumo dizer “evãgélicos”, mas nesse estádio entram também os “Evangélicos”. Em casa com o rádio ligado e jornal na mão estão os ateus, não tão eufóricos, mas encomodados.
Kaká x Kfkf é jogo/luta que, como na antiguidade, serviria para poupar os demais soldados da batalha e subjugar o povo do representante derrotado ao do vencedor.
Pena, mas aqui não é assim. Um acredita que não é por força nem por violência, mas pelo espírito do poder da palavra vitoriosa e indefectível. Outro acredita - quer dizer, não acredita – leciona a doutrina do poder de não acreditar. Parece besta, mas têm conseguido muitos fieis, não por valores que constroem, mas justamente por valores que os crentes pregam e se encarregam em demolir.
Pela tabela de classificação, os ateus são os adversários da vez dos evangélicos canarinhos. Com estes já cruzaram a Igreja Católica, os espíritas, o PT... Sei lá quem ganhou; só sei que os canários do reino que cantam em qualquer lugar, ainda estão no campeonato. E gostam tanto da disputa que, se já não houver adversários para se jogar contra, jogarão entre si: Evãgélicos x Evangélicos. Um time tira a camisa, quer dizer, o manto e jabulani pra frente! Jabulani não, que é nome afro-pagão e que significa “aquela que engana”. Bola pra frente (e pra trás) é melhor.
Não sou crente nem ateu. Sou creneu. Creio em tudo com uma insegurança danada e descreio de tudo com muita fé. Mas amo a vida e amo a morte, amo a ressurreição e amo a cruz.
Depois dessas divagações, que me é comum fazer esse tipo de cera, voltemos ao jogo Kaká x Kfkf. Seria engraçado, ou desgraçado ver, se ao término da grande partida fossem os dois para seus respectivos vestiários e percebessem que na verdade o túnel dos dois acaba no mesmo lugar e, pelados, tomariam banho juntos, compartilhando o mesmo sabonete...
Por enquanto fico por aqui, desabafando: Assistir esse jogo é um pé-no-saco; pé-no-sacro!
Kaká x Kfkf é jogo/luta que, como na antiguidade, serviria para poupar os demais soldados da batalha e subjugar o povo do representante derrotado ao do vencedor.
Pena, mas aqui não é assim. Um acredita que não é por força nem por violência, mas pelo espírito do poder da palavra vitoriosa e indefectível. Outro acredita - quer dizer, não acredita – leciona a doutrina do poder de não acreditar. Parece besta, mas têm conseguido muitos fieis, não por valores que constroem, mas justamente por valores que os crentes pregam e se encarregam em demolir.
Pela tabela de classificação, os ateus são os adversários da vez dos evangélicos canarinhos. Com estes já cruzaram a Igreja Católica, os espíritas, o PT... Sei lá quem ganhou; só sei que os canários do reino que cantam em qualquer lugar, ainda estão no campeonato. E gostam tanto da disputa que, se já não houver adversários para se jogar contra, jogarão entre si: Evãgélicos x Evangélicos. Um time tira a camisa, quer dizer, o manto e jabulani pra frente! Jabulani não, que é nome afro-pagão e que significa “aquela que engana”. Bola pra frente (e pra trás) é melhor.
Não sou crente nem ateu. Sou creneu. Creio em tudo com uma insegurança danada e descreio de tudo com muita fé. Mas amo a vida e amo a morte, amo a ressurreição e amo a cruz.
Depois dessas divagações, que me é comum fazer esse tipo de cera, voltemos ao jogo Kaká x Kfkf. Seria engraçado, ou desgraçado ver, se ao término da grande partida fossem os dois para seus respectivos vestiários e percebessem que na verdade o túnel dos dois acaba no mesmo lugar e, pelados, tomariam banho juntos, compartilhando o mesmo sabonete...
Por enquanto fico por aqui, desabafando: Assistir esse jogo é um pé-no-saco; pé-no-sacro!
terça-feira, 29 de junho de 2010
Breve Golssário do Futebol Para Mulheres (4)
Lei da Vantagem: É quando o árbitro (vulgo juiz) deixa uma jogada prosseguir embora tenha havido falta e a bola continua com o time cujo jogador recebera a falta e a situação pode levar ao gol. Ou seja, é uma vantagem para esse time que sofreu a infração a continuidade do jogo. Igual quando você percebe que seu companheiro está falando bobagem pra você, mas você não o interrompe, pois você está levando vantagem dele estar pelo menos discutindo as relações.
O Fair Play – a política do politicamente correto no futebol – associado à regra permite que o árbitro anote a falta após perceber que o time não levou a vantagem que ele esperava. É como se o seu companheiro deixasse você fazer tudo o que quer durante o dia, e ainda a elogiasse sendo meigo e compreensivo, supondo assim estivesse levando vantagem para chegar a meta, mas à noite você alega – simulando ou não – dor de cabeça, aí ele apita a falta bloqueando seu cartão, retirando as palavras de elogio e dizendo que no domingo não vai almoçar na sua mãe e blá, blá, blá...
O Fair Play – a política do politicamente correto no futebol – associado à regra permite que o árbitro anote a falta após perceber que o time não levou a vantagem que ele esperava. É como se o seu companheiro deixasse você fazer tudo o que quer durante o dia, e ainda a elogiasse sendo meigo e compreensivo, supondo assim estivesse levando vantagem para chegar a meta, mas à noite você alega – simulando ou não – dor de cabeça, aí ele apita a falta bloqueando seu cartão, retirando as palavras de elogio e dizendo que no domingo não vai almoçar na sua mãe e blá, blá, blá...
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Verbetes Africanos
Pra você se virar na África:
Jabulani = Bola
Jabulani-jafurani = Bola-fora
Jaurani Jabulanis = Ora bolas!
Jasulani = Sola
Jabucani = Boca
Jabubuni = Bobo
Jabebuni = Bêbado
Jabulanichi = Bolacha
Jacucani-jaculani = Coca-cola
Jabustani = Bosta
Jaguzani = Goza (com sentido de tirar um sarro; fazer chocarrice)
Ejaculani = Goza (noutro sentido)
Ejaculani já = Goza rápido
Êjacu = Goza a toa
Jagulani = Gorda
Jagulinha = Gordinha
Jadurlani = Dolar
Jacólani = Eu quer ganhar bolão
Jabulani = Bola
Jabulani-jafurani = Bola-fora
Jaurani Jabulanis = Ora bolas!
Jasulani = Sola
Jabucani = Boca
Jabubuni = Bobo
Jabebuni = Bêbado
Jabulanichi = Bolacha
Jacucani-jaculani = Coca-cola
Jabustani = Bosta
Jaguzani = Goza (com sentido de tirar um sarro; fazer chocarrice)
Ejaculani = Goza (noutro sentido)
Ejaculani já = Goza rápido
Êjacu = Goza a toa
Jagulani = Gorda
Jagulinha = Gordinha
Jadurlani = Dolar
Jacólani = Eu quer ganhar bolão
terça-feira, 22 de junho de 2010
Breve Golssário de Futebol Para Mulheres (3)
Goleiro: Jogador cuja missão é impedir o gol do adversário. Único que pode utilizar as mãos e para isso faz uso de luvas. Tem a vantagem de usar, por ordenança da regra a fim de não confundir o árbitro, um modelito diferente dos demais, com cor e desenho à sua escolha. Não é tão bom com as pernas – alguns são muito ruins mesmo - como os demais parceiros, no entanto, tem reflexo superior. Reflexo superior aqui não é a imagem aumentada que você acha que vê quando olha no espelho; é o impulso instantâneo em direção à bola.
O goleiro é o único que não pode falhar. É injusto? Mas nesse jogo é assim. Como no jogo da família nas sociedades machistas, todos podem falhar vergonhosamente, marido, filhos, sogra, cachorros... Só a mulher que não. Muito menos tomar um peru.
O goleiro é o único que não pode falhar. É injusto? Mas nesse jogo é assim. Como no jogo da família nas sociedades machistas, todos podem falhar vergonhosamente, marido, filhos, sogra, cachorros... Só a mulher que não. Muito menos tomar um peru.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Breve Golssário de Futebol Para Mulheres (2)
Impedimento: A regra mais chata de explicar. Tem a ver com o córtex. Curioso é que as mulheres teriam maior condição de flagrar um impedimento do que os homens, por causa da sua capacidade de atenção em dois ou mais pontos simultaneamente. Coisa que os homens não conseguem. Deixemos de bajulação e vamos à explicação; à tentativa:
Um jogador está impedido quando, antes de receber o passe, já se coloca mais próximo à linha de fundo que o penúltimo adversário. Exceção se receber a bola em seu próprio campo.
Para marcar tal infração – tarefa do auxiliar, vulgo bandeirinha - os olhos precisam estar descolados. Um no passe, outro no atacante. A coisa é rápida. Se você quiser olhar o lançamento, depois para o que recebe, perde o time (tempo) é como se você tivesse que ver as duas pontas de um leque gigante podendo chegar a 60 metros (mais ou menos 15 carros enfileirados) ao mesmo tempo. Por isso concluí que as mulheres têm essa facilidade. “... Tem um olho sempre a boiar e outro que agita...” (Chico Buarque)
Se uma amiga te liga e fala de uma grande promoção, você desliga o telefone e sai correndo para a loja, chega lá e vê que está fechada... Você está impedida de comprar, porque você saiu antes dela avisar que a loja só abriria no dia seguinte... Foi mal, eu sei, mas no afã de deixá-las em condição de jogo.
Um jogador está impedido quando, antes de receber o passe, já se coloca mais próximo à linha de fundo que o penúltimo adversário. Exceção se receber a bola em seu próprio campo.
Para marcar tal infração – tarefa do auxiliar, vulgo bandeirinha - os olhos precisam estar descolados. Um no passe, outro no atacante. A coisa é rápida. Se você quiser olhar o lançamento, depois para o que recebe, perde o time (tempo) é como se você tivesse que ver as duas pontas de um leque gigante podendo chegar a 60 metros (mais ou menos 15 carros enfileirados) ao mesmo tempo. Por isso concluí que as mulheres têm essa facilidade. “... Tem um olho sempre a boiar e outro que agita...” (Chico Buarque)
Se uma amiga te liga e fala de uma grande promoção, você desliga o telefone e sai correndo para a loja, chega lá e vê que está fechada... Você está impedida de comprar, porque você saiu antes dela avisar que a loja só abriria no dia seguinte... Foi mal, eu sei, mas no afã de deixá-las em condição de jogo.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Breve Golssário do Futebol Para Mulheres (1)
O Verticontes resolveu criar um Glossário, ou melhor, um Golssário do futebol para aquelas mulheres que só acompanham futebol na Copa do Mundo.
O editor lembra que a linguagem utilizada parte do universo feminino, com seus interesses e representações,logo, os homens que tiverem acesso a esse manual, poderão ficar sem entender uma ou outra explicação, mas com certeza, terão de dar menos explicações durante as partidas.
Gol : Palavra dúbia. Objeto e objetivo ao mesmo tempo. Mais ou menos quando você diz pra si mesma com emoção “Yes!”; você disse a palavra sim, mas ao mesmo tempo “consegui!”.
Gol é aquele quadrado formado por duas traves e uma haste superior em madeiras roliças pintadas de branco, lembrando um de seus porta-retratos, e que se prende a ele um véu de rede de nylon perfeitamente ajustado e fixado à madeira e ao chão. Porém, você não pode gritar “gol!” toda vez que olha para essa figura. O grito de “Gol!” paradoxalmente acontece justamente quando esse espaço, tão reverenciado e protegido é penetrado pela bola (veja explicação de "bola" em post posterior). Entenda-se por “penetrado” o exato instante em que ela transpõe inteiramente a linha branca pintada no chão que liga uma trave a outra, distancia essa mais ou menos a de três sofás de três lugares. Porque há tanta fúria, paixão e comoção nesse momento para o sexo masculino é bem difícil explicar, mas é para um macho adulto como uma afirmação de poder sobre outro bando ou indivíduo. Poderíamos comparar esse momento com um orgasmo, se ficar mais fácil para vocês entenderem, porém com o devido cuidado da diferenciação dos gêneros: para ele pode acontecer precocemente, logo que começa o jogo, mas o que geralmente ocasiona uma perda na concentração e faz com que o adversário parta pra cima. Para ela dificilmente o “gol” ocorre no início da peleja; elas preferem tocar a bola e impor seu ritmo sobre o adversário para só nos acréscimos atingirem sua meta.
Se vocês pensaram “puxa, os jogos deveriam sempre terminar empatados 1x1, 2x2, 3x3!”; sim, vocês entenderam, mas isso serve para o relacionamento a dois... Só que no futebol mesmo não é assim tá? Nós nos propomos a explicar o “gol” em si e não as virtudes de uma partida de futebol.
O editor lembra que a linguagem utilizada parte do universo feminino, com seus interesses e representações,logo, os homens que tiverem acesso a esse manual, poderão ficar sem entender uma ou outra explicação, mas com certeza, terão de dar menos explicações durante as partidas.
Gol : Palavra dúbia. Objeto e objetivo ao mesmo tempo. Mais ou menos quando você diz pra si mesma com emoção “Yes!”; você disse a palavra sim, mas ao mesmo tempo “consegui!”.
Gol é aquele quadrado formado por duas traves e uma haste superior em madeiras roliças pintadas de branco, lembrando um de seus porta-retratos, e que se prende a ele um véu de rede de nylon perfeitamente ajustado e fixado à madeira e ao chão. Porém, você não pode gritar “gol!” toda vez que olha para essa figura. O grito de “Gol!” paradoxalmente acontece justamente quando esse espaço, tão reverenciado e protegido é penetrado pela bola (veja explicação de "bola" em post posterior). Entenda-se por “penetrado” o exato instante em que ela transpõe inteiramente a linha branca pintada no chão que liga uma trave a outra, distancia essa mais ou menos a de três sofás de três lugares. Porque há tanta fúria, paixão e comoção nesse momento para o sexo masculino é bem difícil explicar, mas é para um macho adulto como uma afirmação de poder sobre outro bando ou indivíduo. Poderíamos comparar esse momento com um orgasmo, se ficar mais fácil para vocês entenderem, porém com o devido cuidado da diferenciação dos gêneros: para ele pode acontecer precocemente, logo que começa o jogo, mas o que geralmente ocasiona uma perda na concentração e faz com que o adversário parta pra cima. Para ela dificilmente o “gol” ocorre no início da peleja; elas preferem tocar a bola e impor seu ritmo sobre o adversário para só nos acréscimos atingirem sua meta.
Se vocês pensaram “puxa, os jogos deveriam sempre terminar empatados 1x1, 2x2, 3x3!”; sim, vocês entenderam, mas isso serve para o relacionamento a dois... Só que no futebol mesmo não é assim tá? Nós nos propomos a explicar o “gol” em si e não as virtudes de uma partida de futebol.
domingo, 13 de junho de 2010
Um teatro tentando sobreviver sem nunca ter nascido
A apresentação na Pompéia é por ocasião do Segundo Simpósio de Arte da Igreja Batista em Vila Pompéia. Mais informações aqui.
Clique na imagem para sair de casa.
sábado, 12 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
quinta-feira, 27 de maio de 2010
terça-feira, 25 de maio de 2010
O que pesa mais?
O que pesa mais,um quilo de pedra,
ou um quilo de pecado?
O que lesa mais,
um quilo de sermão,
ou um quilo de fardo?
O que presta mais,
um quilo de unção,
ou um quilo de canto?
O que peca mais,
um quilo de irmão,
ou um quilo de santo?
O que pesa mais,
um quilo de igreja,
ou um quilo de dízimo?
O que gela mais,
um quilo de cerveja,
ou um quilo de dogma?
O que zela mais,
um quilo de crente,
ou um quilo de lei?
O que pensa mais,
um quilo de mente,
ou um quilo de grei?
O que passa mais,
um quilo de tempo,
ou um quilo de uva?
O que vela mais,
um quilo de vigília,
ou um quilo de viúva?
O que pesa mais,
um quilo de chumbo,
ou um quilo de templo?
Um quilo de mundo,
ou um quilo de exemplo?
O que pesa mais?
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Recall Teológico (5)
A Convenção Nacional das Igrejas Evãgélicas Faísca de Fogo de Fé, convoca o recall teológico de seus membros e frequentadores, para inspeção gratuita – aceita-se ofertas – dos chicotes elétricos com que foram batizados. Confirmam os montadores que a grande maioria saiu com má fixação dos isoladores na língua, provocando danos sérios a terceiros, a quartos e a quintos. O risco maior em tal desconformidade é a queima das relações provocadas pelos cultos circuitos mesmo com os fusíveis da paciência de baixa amperagem. Com isso, palavras na ponta da língua escapam a todo instante, roubando a corrente principal que faria todo corpo se mover.
A Convenção, em nota oficial, reitera que não se responsabiliza por unidades que não forem vistoriadas dentro do prazo, assim como, faz saber que nem todos os irmãos em trânsito hoje, ungidos ou não, e que apresentam sintomas de incontinência verbangelical, sofrem pelas razões apontadas acima.
Yuri Nabo Cuda
Presidente
A Convenção, em nota oficial, reitera que não se responsabiliza por unidades que não forem vistoriadas dentro do prazo, assim como, faz saber que nem todos os irmãos em trânsito hoje, ungidos ou não, e que apresentam sintomas de incontinência verbangelical, sofrem pelas razões apontadas acima.
Yuri Nabo Cuda
Presidente
quinta-feira, 20 de maio de 2010
O Garanhão Homossexual (da Série, Animais Especiais)
Aos quatro anos de idade Gonçalo deixou a fazenda. Teve uma conversa com a égua mãe – já que pai de cavalo é sempre muito ocupado e quase nunca está por perto – e saiu.Gonçalo era um Mangalarga Marchador formidável. Mas fazia marchar por, vamos dizer profissão e não por vocação. Não gostava. Dizia aos mais íntimos – pouquíssimos diga-se – que aquele negócio de marchar lembrava cavalaria organizada imperial. Não que ele já tivesse participado de muitas, era ainda jovem, mas daquilo que ouvia dos mais velhos e da própria mãe que contava da nobreza e singularidade da raça e tudo mais. Ouvia que seus semelhantes eram imbatíveis quanto a acompanhar o ritmo alucinante das caçadas e também, na lida com o gado em campo aberto. Para Gonçalo não passavam de vaidades. Deixou aqueles campos por causa das suas próprias; e também pelo seu orgulho. Menos pela chateação dos demais equinos que não lhe ignoravam os modos, do que pelo seu amor próprio e desejo de liberdade.
Quanto à aparência podemos descrever aquilo que se leu nos cartazes espalhados pela redondeza após seu sumiço: “... 'Garanhão' de origem real portuguesa, marrom escuro, expressão vigorosa, olhos escuros e atentos, fronte larga e plana, narinas grandes e flexíveis, pescoço de musculatura forte, crinas pretas e ralas, finas e sedosas, como a calda, com a ponta levemente voltada para cima ao andar; é um marchador mais tenta disfarçar no trote...”. Este último item era de fato o que mais o caracterizava. Cauda de sabugo curto e rijo, como batuta, dava o tempo para a própria coreografia do corpo inteiro. Enfim, Gonçalo era mais do que esse narrador seria capaz de descrever e menos do que possa interessar ao distinto leitor.
Gonçalo era um Garanhão homossexual, mas seus senhores não entendiam assim. Como um excelente exemplar da raça, insistiram até o fim para que cumprisse as coberturas com as mais belas éguas. Porém, para ele, só companheiras; éguas iguais. Assim, começaram a tratá-lo como um animal especial, que para a susceptibilidade de cavalo, especial não é nada especial; Entendia mais como espéciemal.
E a coisa foi ganhando cada vez mais distinção e, como até nos preconceitos aceitos por uma sociedade, a primeira evidencia disso e até mesmo que se auto-denuncia é a linguagem, Gonçalo passou a ser conhecido como Gayranhão. Pronto, aí todos já não precisavam se preocupar mais. Quando se dá um nome ao problema, o problema se enfraquece, e o seu objeto vira abjeto. Não forçaram mais a barra com Gonçalo. Isolaram-no, e pior, transferiram seus poucos amigos machos do cocho.
Apesar de tudo, Gonçalo não sofreu maiores danos. O que lhe importava mesmo era a liberdade, da qual corria atrás. Embora a discriminação galopasse sem barreiras, ainda utilizavam-no para caça. Isto sim lhe perturbava, assim como a indiferença dos outros cavalos, com relação a ajudar na matança de raposas, veados e outros bichos.
Abandonou o lar numa primavera, quando os chacais saem para acasalar e os caçadores se aproveitam dos uivos e descuidos dos machos. “No que depender de mim, esses carniceiros vão fazer amor tranquilos, sem a espreita dos covardes!”, pensou Gonçalo. E como fazia todas as manhãs bem cedo, quando a relva ainda se cobria do sereno e uma nevoa densa cobria a mata que cercava a propriedade, Gonçalo galopou em direção a ela e não retornou mais, desbravando o medo e as superstições, comum entre os Mangalargas, quando a ordem era entrar nestas nuvens.
A fama de Gonçalo perdurou nas cercanias. Para os cavalos mais velhos e honrados, uma aberração irônica da natureza. Para os mais jovens Garanhões, fascínio e mau exemplo, curiosidade e submissão, tudo ao mesmo tempo. Para a velha mãe, retratos e abandono.
De qualquer forma não conseguiram apagar sua imagem. E as imagens são sempre mais fortes para aqueles que não as viram. Tendem a crescer e ganhar maior impressão, para o bem e para o mal. Os que queriam menosprezá-lo, diziam ter ele, assim que fugiu em meio às névoas, tropeçado e quebrado a perna, sendo sacrificado. Os que queriam seu esquecimento, diziam aos filhos que ele era uma invenção, um folclore, um tipo mula-sem-cabeça, que pegava os potros desobedientes. Para os que queriam sua abominação, diziam que se enamorou com outros garanhões e, sem o saber, com o próprio pai, afinal de contas, pai de cavalo é sempre muito ocupado e não reconhece a própria descendência.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
De onde sai
A aranha sai da teia;a veia sai da entranha;
o escorpião sai da toca;
a broca sai do vão;
a cobra sai do ninho;
o sozinho sai da sobra;
a traça sai do antigo;
o inimigo sai da farsa.
A lótus sai do lodo;
o medo sai morte;
o rato sai do esgoto;
o moto sai do trato.
E a vida vai seguindo.
E o ato sai da rua;
e a nua sai da foto;
e o foco sai da cena;
e a pena sai da ave.
E a vida vai gemendo;
e o berne sai da pele;
e o apelo sai do cerne
e a vida vai sugando
o leite que sai da mama,
da vida que sai do ventre
e da gente que sai da vida.
Prefácio que sai do fim
de mim que nada sai,
senão o pus que sai da cura,
que sai do senso,
que sai do são,
que sai da mente,
que sai da mão.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Pô ética (7)
Em que turminha se meteu o secretário,
cujo game travou ironicamente na pista
do contrabandista escondido no armário?
cujo game travou ironicamente na pista
do contrabandista escondido no armário?
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O Dunga é só mais um anão
Não sei por que a surpresa diante do inexorável. Refiro-me à escalação dos jogadores do técnico Dunga que vestirão a camisa do Brasil nessa Copa do Mundo. Grupo sem muito brilho, mas com “muito amor pela Pátria”, segundo as palavras do treinador. Mas devemos perdoá-lo. Dunga é somente mais um anão diante do gigante erguido no nosso tempo: o gigante da Qualidade. Com um “Q” mais que maiúsculo, impõe que tudo deve ter o compromisso da excelência, do perfeito, do correto. Gigante gerado com o puro sêmem dos bons.Para o gigante Q – que tem um “q” de inimigo íntimo – Dunga não é nem uma pessoa; é um processo. Dunga é um processo que deu certo e tudo deve ser semelhante a ele. Dunga é o protótipo do bom; bom homem, bom moço, bom filho da mãe boa e do pai bom, bom profissional, bom amigo, bom filho da Pátria. Quem tem força de lutar contra o Q? Dunga diz: se Q é por nós, quem será contra nós?
A única coisa que Q teme é a vida, com suas imprevisibilidades e suspeitáveis caminhos. E observando que o futebol é como uma metáfora da vida, com paixões, sucessos, derrotas, lutas, metas, jogo-sujo, malandragem, surpresa, malícia, arte, violência, plástica, catarses, trabalho, sorte, orgulho, vergonha... Ele quer corrigi-lo.
O futebol e toda sua alegria e paixão estão com seus dias contados. Não que vá acabar, expurgando a arte, ficará cada vez mais excelente... Mas insosso. Já vemos sinais disso. Se um jogador aplica um chapéu no adversário, o árbitro lhe aplica um amarelo, motivo: desrespeito. Se um jogador vai ao encontro da sua torcida para comemorar o gol, recebe amarelo, motivo: agito e insurreição. Se um craque vai tomar uma cerveja e é flagrado, todas as suas jogadas geniais e seus gols do dia anterior são removidos do noticiário para dar lugar ao sermão e punição dos “Qriticos” que pregam: mais vale um cabeça-de-bagre treinando do que dez craques num bar.
Está chegando o jogo em que o atacante que faz o gol, não poderá comemorar, mas deverá se dirigir ao capitão da equipe rival e lhe pedir perdão, alegando que aquilo é seu ofício e tudo mais, isso na presença do árbitro que só então repõe a bola no meio campo. O drible será proibido. A bola só poderá seguir adiante do zagueiro se for por intermédio de tabela. O intuito final é acabar com os árbitros. Afinal de contas estará incutido nos jogadores que o mais importante é a honradez, o decoro. Talvez precise de alguém só para decidir impasses tipo: “oh desculpe, eu fiz falta em você...”, “não, não, eu caí sozinho...”, “eu insisto, você não cairia se meu joelho não esbarrasse na sua coxa...” “você me tocou? Imagina cara!”. Ou, o centroavante parte com a bola dominada rumo ao gol e de repente pára: “o que houve” diz o árbitro. “eu estava impedido”, “mas nem o bandeira deu!” insiste o zagueiro adversário... Aí aparece o intermediador e decide a parada.
Assim caminha o futebol. O favor será mais importante que o gol; a educação será mais importante que a garra; a moral será mais importante que a torcida. A hipocrisia é mais importante que um pênalti.
Tenhamos paciência. Dunga é só mais um anão diante desse futuro, quando a copa do mundo será – copa do mundo não, copa não é estético, a sala-de-estar do mundo – será uma disputa – disputa também é feio – será uma competição para ver qual é o futebol mais coerente e fraterno do mundo. A seleção não será mais a Pátria de chuteiras e sim a Apatia de chuteiras.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Um filme em Um D
Assisti hoje Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, dos diretores Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (Madame Satã e O Céu de Suely).
Fui levado pela boa impressão dos trabalhos anteriores e não me arrependi. Só me incomodei. Viajo Porque Preciso... É um filme recomendado a todo hurbanoide. É um filme feio, porém, imperdível. Incomodante.
É a visão de um geólogo que viaja pelo sertão nordestino a fim de mapear o percurso de um canal para a transposição do Rio das Almas, único rio caudaloso da região. A crise do personagem é uma solidão tumultuada pela figura inesquecível da mulher amada, com outras que nem podem ser coadjuvantes dadas à desgraceira da realidade de seu mundo esquecido.
Não se sabe aonde começa a fotografia e o filme. As imagens são fotos vivas enquadradas na janela da caminhonete. As pessoas são quase um cenário tamanho é a coragem de encararem a câmera por infinitos períodos, - coisa que até ator tem dificuldade – o que acaba por nos incomodar. Dá vontade ao espectador de responder, mas não se pode e nem sabe o que.
Num tempo em que só se fala em imagens tridimensionais, o filme de Marcelo e Karim nos força a ver, em alguns instantes, imagens em 3D, mas sem os óculos.
Num tempo em que todo esse circo do cinema quer que entremos no filme e façamos parte da fantasia, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, viaja em caminho oposto e faz-nos sentir em uma única dimensão: a dos que não conseguem e nunca vão conseguir, penetrar em algumas realidades deste País e de sua gente.
Fui levado pela boa impressão dos trabalhos anteriores e não me arrependi. Só me incomodei. Viajo Porque Preciso... É um filme recomendado a todo hurbanoide. É um filme feio, porém, imperdível. Incomodante.
É a visão de um geólogo que viaja pelo sertão nordestino a fim de mapear o percurso de um canal para a transposição do Rio das Almas, único rio caudaloso da região. A crise do personagem é uma solidão tumultuada pela figura inesquecível da mulher amada, com outras que nem podem ser coadjuvantes dadas à desgraceira da realidade de seu mundo esquecido.
Não se sabe aonde começa a fotografia e o filme. As imagens são fotos vivas enquadradas na janela da caminhonete. As pessoas são quase um cenário tamanho é a coragem de encararem a câmera por infinitos períodos, - coisa que até ator tem dificuldade – o que acaba por nos incomodar. Dá vontade ao espectador de responder, mas não se pode e nem sabe o que.
Num tempo em que só se fala em imagens tridimensionais, o filme de Marcelo e Karim nos força a ver, em alguns instantes, imagens em 3D, mas sem os óculos.
Num tempo em que todo esse circo do cinema quer que entremos no filme e façamos parte da fantasia, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, viaja em caminho oposto e faz-nos sentir em uma única dimensão: a dos que não conseguem e nunca vão conseguir, penetrar em algumas realidades deste País e de sua gente.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
Assentado no trono
Assentado no trono é o melhor lugar para pensar. Que me desculpem os românticos e meditadores profissionais. Aliás, meditar não é pensar, ou é? E hoje em dia não se pode mais parar pra pensar, o mundo te atropela. Sei que a maioria não vai concordar e virão, com todo respeito, com aquela conversa que precisamos buscar momentos de solitude, (vejam como é sintomático, a Microsoft, aqui no meu World, não reconhece essa palavra) de reclusão, e que estar solitário não é o mesmo que estar sozinho e bla bla bla. (bla, aqui, é abreviação de blandíloquo, dono de voz branda e suave).“Mas eu penso muito quando estou fazendo uma caminhada ou quando estou no metrô...”, alguns dirão. Não, neste momento estamos sendo estimulados de fora para dentro e até conseguimos uns insights. Na meditação budista esta palavra é vipassana (vi passando então pensei... Desculpem, não resisti ao trocadilho). O pensamento é algo que vem de dentro para dentro.
Assim, é assentado no trono que podemos verdadeiramente parar para pensar. Se parar para pensar é importante, ainda mais parar para fazer o intestino funcionar. É instante sublime de perfeita interação corpo e mente. A citação latina Mens sana in corpore sano, provavelmente fora construída neste instante. O intestino com bom funcionamento areja a mente. E quando você vai a uma consulta médica, especialmente essas de acupuntura ou homeopatia, eles não te perguntam se você está pensando normalmente, ou se o cérebro está funcionando; eles te perguntam se você está indo ao banheiro.
Os horizontes de serras e os ocasos não me fazem pensar. Só contemplo. Contemplo quando faço daquilo um templo e num templo não se pensa, se adora. Não pensem que os poetas montam suas palavras contemplando as maravilhas da natureza, ou que há lugares especiais para a produção intelectual. Uma pedra sob uma frondosa árvore no meio do mato e com toda sorte de pássaros brigando por seus frutos, é o lugar ideal até você ir até lá e não conseguir ficar mais que dez minutos, pois os mosquitos zoam nos seus ouvidos, quase entrando; a brisa não é tão agradável como você imaginou e a pedra não acomoda sua bunda por mais que você se ajeite.
Existem carismáticos carentes que interpretam cada movimento natural como uma epifania a socorrê-los. “... Se essa borboleta pousar em mim, vou saber que devo ir... Olha aquela nuvem, é um dedo apontando para o alto... Essa pessoa que veio me pedir uma informação foi enviada pelos céus e devo lhe mostrar o verdadeiro caminho...”.
O cubículo do banheiro é o melhor lugar onde até os claustrofóbicos não reclamam. Ali você não tem como dispersar. A porta é sua interlocutora. E porta, como todos sabem é uma porta, não fala. Você pode pensar a vontade que ela vai ficar neutra. Porta não tem preconceitos. Você pensa absurdos e pra ela tudo bem. Nada vai acontecer ali, a não ser o encontro de você com você mesmo e, claro, com sua melhor-pior produção, assim como são seus pensamentos; assim como são nossas intenções.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Seja feliz porque a vida galopa
Uma menina fez quinze anos.Ela está presa nos dias da semana
e na cama produz pólen nos sonos.
Só no oitavo espirro se acalma.
Ela está livre de arrumar o quarto;
está livre de revelar pensamentos
que fogem nas palavras insanas
e regurgita o que não pode explicar.
O mapa-múndi é o mundo pregado
escondendo a parede pichada
de um mundo maior e escondido
nas revelações do seu rosto no espelho.
Uma menina fez quinze anos
e o mundo deve estar podre;
ela sente aromas azedos
e o mundo deve estar pobre;
tem dó do ladrão de brinquedos...
Uma menina fez quinze anos
pensando que faz tempo que fez,
e o telefone tocou uma única vez
desde que sempre existiu.
Não perde chance de falar.
Perde coisas caras
e quebra cara de coisas.
Dos pés come as unhas e a carne,
pra não andar onde não quer.
Não quis querer dançar a valsa,
mas quer querer pisar nos pés...
Uma menina fez quinze anos,
“seja feliz porque a vida galopa”.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
sábado, 17 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
O Tatu Claustrofóbico (da Série, Animais Especiais)
Tadeu odiava o escuro. Mas não era o escuro, eram os lugares apertados e com uma única saída. Ao certo, Tadeu não sabia o que lhe incomodava tanto ao ter que entrar num buraco. Tadeu era claustrofóbico, mas não tinha este diagnóstico.Diziam a ele que acabaria morto por passar tanto tempo fora da toca. Para Tadeu a agonia da morte estava justamente ali dentro. Do psíquico os sintomas passam ao físico e Tadeu começa transpirar dentro da carcaça, as patas ficam trêmulas e o coraçãozinho parece que vai explodir. O medo alimenta o medo e Tadeu sai como uma bala do buraco, o que faz aumentar ainda mais o batimento cardíaco, porém a luz e o ar externos o acalmam.
Devia fazer uma escolha quando os cães dos caçadores estavam por perto: a segurança mórbida do aperto escuro, ou o perigo vivificante da savana aberta. Optava pelo segundo. Isso acabou lhe garantindo um tipo de inteligência estratégica para encarar cães e caçadores. Como possuía uma carapaça óssea, dura e flexível, podia se fechar como se fosse um coco maduro em pequenas moitas, até em meio aos cactos, com as garras para cima. Quando vinha um cachorro, ele o feria no focinho, ponto fraco do inimigo. Sem cão, caçador não é nada – e gatos são muito sublimes para suportar o fedor de um Peba. Assim, despistava-os.
Tadeu era solitário não porque os tatus têm essa fama, mas porque não conseguia conviver nas comunidades subterrâneas. Sonhava um dia encontrar um parceiro com a mesma fobia. Quem sabe uma parceira... Achava na sua ignorância de Tatu-peba, que poderia gerar outros clautrofobicozinhos e, com muito treinamento e aperfeiçoamento de seus estratagemas, outros viriam se juntar ao novo modelo de sobrevivência, sem precisar construir túneis para todo lado e viverem subalternamente subterrâneos.
Seus iguais lhe censuravam: “você não pode fugir da sua natureza! Você foi feito para cavar!”
Tinha que absorver as troças dos outros tatus que em rodinhas ficavam medindo suas garras e competindo quem tirava mais terra em menos tempo. Ao passo que ele examinava as suas unhas cada vez mais atrofiadas por falta de exercícios. O que dava dignidade aos tatus, Tadeu desdenhava.
Tadeu passava horas e horas em meio a uns arbustos, refúgio que ele já se adaptara, quando havia caçador por perto - entenda-se por caçador não exatamente um sujeito bem equipado, botas e espingarda, cara de mau e cães de raça, mas um miserável morto de fome do Cerrado, com facão, pé no chão e vira-latas não menos miseráveis. Ali Tadeu aproveitava para pensar, enquanto deitado de costas, de papo pro ar, olhando o céu. Pensamento de Tatu-peba não vai muito longe, mas Tadeu explorava os seus limites. Pensava o que seriam aquelas coisas brancas, suspensas no ar, que se moviam lentamente mudando de forma a cada piscada de olho e que, por ser míope, a imaginação fluía e o fazia ver, dentro do seu restrito universo, figuras: um teiú; um tatu que vira formiga; uma cabeça de cão; um cateto; uma ave; um tatu de novo... Fica pensando também que passou grande parte da vida sem olhar para o céu. Seus semelhantes entendiam muito de terras e formigas, mas quase nada de pássaros. O seu faro é ótimo e lhe avisa quando deve parar com os pensamentos. Enquanto isso pensa no papo que teve com um Tatu-canastra e porque aquilo lhe ficava martelando. Era meio que proibido para um Tatu-peba a socialização com um Canastra. Para os Pebas o nome já dizia tudo: eram uns canastrões. Dissimulados, se faziam de coitados alegando que sua espécie estava em extinção e, muito embora os Pebas não entendessem muito bem o que isso significava, alguns eram iludidos e sediam suas tocas com muito custo escavadas, para esses tatus gigantes, natos fossadores que arrombavam tais moradias as deixando inabitáveis depois. Sem contar que seus hábitos noturnos fazia piorar sua reputação.
Contudo, para Tadeu, como sua fama entre os Pebas já não era lá essas coisas, trocou umas conversas certo dia com um Tatu-canastra. Aquilo que ficou martelando. O Canastra lhe contou numa noitinha, instante em que os pebas se recolhem, e enquanto degustavam um formigueiro em pânico, que descobriu nos recônditos subterrâneos, coisas indizíveis; sacrilégios.
- Como posso saber se está falando a verdade, se eu não entro por mais de um metro nesses buracos? - Respondeu Tadeu.
- Por baixo não podes, mas por cima vasculhas. – Retrucou o Canastra.
- E aí?
- E aí seu peba, vê se não está cheio de buracos ao entorno do... Do cemitério dos humanos.
- Que barbaridade!
A barbárie era que, segundo o Canastra, os Pebas estariam a comer cadáveres. Embora houvesse mesmo inúmeras tocas no entorno do cemitério, Tadeu não conseguiu provas contundentes, o que também não quis se esforçar para isso. E quando não há provas, há dúvidas. A prova faz cessar as reflexões, a dúvida as fomenta. Por isso, Tadeu passava cada vez mais tempo entre as moitas, pensando, pensando, mesmo quando já não havia mais vira-latas por perto.
Por fim, entre nuvens e cemitérios, passava pela cachola do Tadeu a sua condição de tatu-peba e por que razão tinha aquele medo todo da subterra. Era ele normal e todos os outros anormais desprovidos de medo, o medo que adverte contra absurdos e atrocidades? Por que então não aparece outro tatu, ou tatua, no mundo como ele? – Mundo de tatu é tão somente o seu habitatu, vale dizer.
Tadeu foi ficando cada vez mais isolado e a cada dia perdia mais o contatu com a realidade. Perdendo o medo de cães e caçadores; perdendo a coragem de enfrentar os becos; perdendo o preconceito de se aproximar dos Canastras; perdendo os limites do pensamento... Tadeu se tornou um andarilho, sem garras, de casco queimado, sobrevivendo de restos de cupinzeiros desabitados e raízes secas.
Visto cada vez menos aqui e acolá falando sozinho, algumas vezes gritando e praguejando, xingando de carniceiros a outros Pebas que riam e zombavam dele e os Pebinhas se divertiam jogando-lhe torrões e fazendo um círculo em volta dele até que se desesperasse.
Não possuindo mais dados fidedignos para essa narrativa, este narrador encerra com a última e maldosa informação, de que fora Tadeu adotado por um Tatu-galinha.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Beijo Bandido
Um beijo estava chegando à faculdade quando percebeu uma muvuca e viu que era um amigo que estava sendo preso. Já estava algemado, mas muito aflitos conseguiram trocar umas palavras antes que entrasse no camburão:
- Que aconteceu?
- Não fui eu! Não fui eu!
- Mas o que?!
- A meningite! Não fui eu!
- Calma, vou te arrumar um advogado!
- Alguém da facul pegou meningite e fui acusado!
- A pessoa morreu?
- Como vou saber? Só sei que sou inocente!
- Preciso saber para saber o tipo de advogado que precisa!
- Explica pra eles! Você me conhece! Sabe que eu não faria mal nem se fosse de Judas!
- Não fale mais nada! Quanto mais fala, mais a saliva depõe contra você!
- Que ódio! Me soltem! Senão vou beijar vocês!
Diante dessa ameaça, amordaçaram-lhe:
- Hurrmm! Hurrmmnn!
- Vocês não podem fazer isso! Ele tem o direito de ficar em silêncio, não o dever!
- Hurrmm! Hurrmmnn!
- Tem aqui várias testemunhas! Não podem mantê-lo como um beijo roubado em seus direitos! Vou entrar com uma ação e o Estado é que acabará no tribunal!
Diante dessa ameaça, soltaram os lábios.
- Hurm... Seus truculentos reacionários! Vou beijá-los de língu...aiii!
Diante dessa ameaça, deram-lhe uma porrada.
O amigo consegue chegar mais próximo do beijo que está sangrando e meio desmaiando, mas antes de baterem a porta do carro, ele consegue balbuciar:
- Dig... Diga a ela... Q... Que fiz por amor...
Som de Sirene.
- Que aconteceu?
- Não fui eu! Não fui eu!
- Mas o que?!
- A meningite! Não fui eu!
- Calma, vou te arrumar um advogado!
- Alguém da facul pegou meningite e fui acusado!
- A pessoa morreu?
- Como vou saber? Só sei que sou inocente!
- Preciso saber para saber o tipo de advogado que precisa!
- Explica pra eles! Você me conhece! Sabe que eu não faria mal nem se fosse de Judas!
- Não fale mais nada! Quanto mais fala, mais a saliva depõe contra você!
- Que ódio! Me soltem! Senão vou beijar vocês!
Diante dessa ameaça, amordaçaram-lhe:
- Hurrmm! Hurrmmnn!
- Vocês não podem fazer isso! Ele tem o direito de ficar em silêncio, não o dever!
- Hurrmm! Hurrmmnn!
- Tem aqui várias testemunhas! Não podem mantê-lo como um beijo roubado em seus direitos! Vou entrar com uma ação e o Estado é que acabará no tribunal!
Diante dessa ameaça, soltaram os lábios.
- Hurm... Seus truculentos reacionários! Vou beijá-los de língu...aiii!
Diante dessa ameaça, deram-lhe uma porrada.
O amigo consegue chegar mais próximo do beijo que está sangrando e meio desmaiando, mas antes de baterem a porta do carro, ele consegue balbuciar:
- Dig... Diga a ela... Q... Que fiz por amor...
Som de Sirene.
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