quarta-feira, 19 de março de 2008

Sobre o Ter e o Ser (2)

Acho tolice essa discussão sobre ter e ser. Aliás, quase já não há mais discussão: o importante é ser e não ter. Eis o veredicto. E isso é apregoado em todos os cantos, não mais como filosofia-de-porta-de-igreja apenas, mas como filosofia-de-dentro-da-igreja, filosofia-de-caixa-de-entrada-de-e-mail, filosofia-de-professor-universitário-da-puc-querendo-impressionar-na-última-aula-da-sexta-feira, filosofia-de-bar-cabeça, filosofia-de-convite-de-formatura, filosofia-de-editora-de-auto-ajuda, etc. Só ainda não é a filosofia-de-barraco-da-margem-do-tamanduateí, porque o menino que fuça o lixão ainda não foi doutrinado no que significa ser, muito menos ter. Só sabe que é um menino barrigudo porque tem uma barriga grande... A beleza de ser é tão feia também!
Eu não sou convicto das pregações nem tenho certeza de nada. Por isso fiz essas brincadeiras com as palavras aí em baixo.
Tudo bem, chamam de fuga, brincar com aquilo que não conseguimos lidar internamente... Que seja. Fugirei sempre em que encontrar as portas do cárcere do senso-comum abertas.
Voltando: é tolice pensar que alguém deve ser feliz, por exemplo. Como se tivesse nascido assim. Quem disse que o ser humano é feliz por natureza? Deveria então nascer gargalhando ao invés de chorando. Não sou terapeuta de feto, - nem de fato - mas será que ele não chora porque passa do estado de paz e não-medo para o irreversível estado de ansiedade e medo? Chora porque nunca mais será o mesmo...
Mas isso também é uma teoria. Minha teoria. Não posso provar sequer com meu testemunho, se fora assim mesmo que se deu comigo... Faz tanto tempo. E no meu caso ainda teria um agravante, pois além da fase embrionária que precede a fase fetal, vivi a fase fatal, - que sucede a fetal, se algum descuido ocorrer - dadas as circunstâncias da minha natividade. Mas isso é outro assunto.

Na questão do ser, o máximo que conseguimos é ser humano, e não pleno.
Mais uma proposição: o que veio a ser foi feito do que se veio a ter.
Seu pai teve a chance de conhecer uma mulher. Ela teve uma ótima impressão dele. Tiveram um relacionamento. Tiveram a coragem de se casar. Tiveram outro tipo de relacionamento, mais específico (veja, estou falando de nossos pais, por isso essa ordem dos fatos). Sua mãe passou a ter náuseas, logo, e por fim, teve você, este ser tentando ser você mesmo o tempo todo. - Tai outra discussão: dá pra ser outra coisa senão nós mesmos? Enfim, outro assunto também.
O importante, diz o consenso, é que você deve ser... Contudo, e antes de tudo, você precisa ter a consciência de que precisa ser.
Ser é chato e presunçoso. Ter é humano.
Ser é ambíguo. Ter é umbigo.
Ser é uma floresta densa e intransitável.
Ter é uma rua de terra.
Não que eu seja contra o ser. Querendo ou não eu sou.
É que as crises de ser são mais severas que a do ter. Se você está em crise por você não ter, dá-se um jeito ou mesmo conforma-se. Se você está em crise porque você não é, aí não há jeito e nem nunca você vai se conformar com isso.

2 comentários:

Anônimo disse...

Grande Wilson... Nunca fiz comentários a respeito do que vc escreve.. Suas linhas e "não linhas" são perfeitas... Obrigado por sempre abençoar pelo menos a mim

Abraços!!!

Marcos Elias

Wilson Tonioli disse...

Valeu mesmo Marcos. Gostei da 'não-linha'.
abraço