sábado, 9 de abril de 2011

É absurdo, mas não é mudo

Toda vez que ocorre uma tragédia verdadeira, - como essa da chacina na Escola do Realengo, no Rio - a reboque vem os questionamentos. Alguém precisa explicar. Deve de ter uma razão. O que dizem os especialistas... Inventam-se mil coisas. Inúteis. O absurdo ri das teorias.

A dor da tragédia reside aí mesmo. Não há explicação. Não há como se livrar: o absurdo existe e devemos arcar com ele. É absurdo, mas não é mudo. É gritante. E é meu e é seu, é de todos nós. Não tente se livrar dele. Ao invés, renda-se. A natureza humana é nossa roupa da qual não conseguimos nos despir.

A tragédia existe para afirmar a totalidade da vida. Não adianta orar, rezar, acender vela, buscar passe, meditar, se benzer, tornar-se um sujeito melhor... Absolutamente nada vai te proteger. Nem pense que você terá um livramento especial. Só a morte nos protege da vida.

Agora eu pergunto: quem chorou no dia seguinte? Quem passou mal o dia inteiro, como se tivesse engolido uma bolinha de gude, e o peito fosse estourar? Quem usou alguma vestimenta preta no dia seguinte? Quem fez um jejum de sorrisos? Quem rezou pelas famílias envolvidas? Quem transformou a indignação em ação física?

Como no Mito de Sísifo, que vivia de empurrar uma enorme pedra morro acima só para vê-la despencar, também sofremos dessa maldição, de ter que voltar sempre às mesmas tarefas, não importa o que aconteça ao nosso redor, e dizemos: a vida continua... Assim, o sem-sentido do absurdo nos domina e ainda chamamos a isso de vida.

Já que temos que suportar o absurdo, por que não o fazemos juntos? Quem sabe uma dor sentida que é espalhada para um raio enorme de outros seres humanos, não torne a dor lancinante do núcleo mais branda? Lembre-se que a fera do absurdo se alimenta da carniça do egoísmo.

Responda à voz do absurdo, não com ar prepotente e cínico, fazendo que não é com você e que está no controle de tudo. Responda à voz causticante do absurdo com lágrima e gestos.

5 comentários:

Felipe Henrique disse...

Quando comecei a ler, tive a impressão que estava lendo um texto do Pedro Bial rs muito bom o texto, é a pura realidade, falta amor e compaixão pelas pessoas, acontece uma tragédia dessas e continuam agindo como se tudo isso fosse normal! õÔ

Anônimo disse...

vida, vida.
vida abundante na tragédia transbordante.
Deus nos ajude a viver em abundância qdo a vida se desfaz em tragédia.

joõa ali

wilson tonioli disse...

É isso aí Felipe. Mto obrigado pela visita.
Valeu Ali, meu anônimo mais conhecido.
abçs

Danilo Fernandes disse...

Coisa linda Tonioli! Tem diet?

Não tem né? Não tem vida diet.

Vou levar.

E o chopp, quando será?

Renato e Cris disse...

Wilson Tonioli e os demais comentaristas,

Achar que devemos aceitar viver num mundo de tragédias e que não adiantar "orar" ou fazer qualquer outra coisa, estaremos no mesmo barco do "Onde está Deus?" de Chico Anysio e Arnaldo Jabor.
Ele é tão grande, mas nós o fazemos tão pequeno, quando não O trazemos para dentro das nossas casas, das nossas escolas.....

Ministério Igeja Sem Fronteiras
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