sábado, 13 de dezembro de 2008

Um Caso de Transtorno de Pica

Ataíde Gustavo sofria do Transtorno de Pica. Mal também chamado de Alotriofagia, que é um desejo incontrolável de comer coisas não comestíveis.
O diagnostico foi feito tardiamente, mas desde a mais tenra idade já apresentava os sintomas. Isso porque é muito comum crianças até certa idade levar tudo à boca – fase oral – e por se tratar de patologia rara, não dá para ter certeza sem exames e testes numa fase posterior. E Gustavinho, para dissabor dos pais, era um caso.
Depois de confirmada a suspeita dos peritos, a mãe começou a recordar então de algumas situações que nos primeiros anos de vida de Gustavinho, achava estranho, mas como era mãerinheira de primeira viagem, deixava prá lá. Às vezes contava às vezes não, ao marido. Estava explicado porque ele só mamava no peito quando ela colocava o sutiã. Como a mãe percebeu isso não se sabe, coisa do instinto materno. Talvez ela achasse que com o sutiã, o colostro teria um gosto mais aceitável para o paladar de Ataíde, enfim... Foi atrás de alguns sutiãs que havia guardado daquela época – mãe tem dessas coisas – e percebeu de fato que as pontinhas estavam carcomidas, ou melhor, comidas; “carcomida” dá idéia de algo que o tempo e a traça roeram... Mas não! Gustavinho comeu mesmo! Tivesse o bichinho, dentes nessa fase, e ela sentiria na pele.
Houve um período assim mesmo, de descobertas e espantos, após Ataíde Gustavo completar nove anos de idade, quando a doença foi constatada. Sumiços de objetos; um rato que nunca conseguiam pegar apesar das inúmeras ratoeiras e dedetizações; o mistério das xícaras quebradas nas bordas – e tome bronca a empregada; o esquartejamento dos bonequinhos do Forte Apache – e tome chineladas o cachorro; os móbiles capengas sobre o berço; os pequenos buracos na terra no quintal... Agora estava tudo esclarecido. Até as acusações dos coleguinhas do primário, as quais a professora ignorava, de que Gustavinho estava comendo os apontadores e borrachas da turma, agora procediam. A mãe não quer nem pensar muito do que não teria ingerido o seu filhinho na fase oral, quando realmente se juntou à fome a vontade de comer.
Passados esses dias de choque, vieram dias de aceitação e conformismo. O jeito era adaptar o ambiente para o filhinho especial e, como é comum, a mãe foi para a internet, aos grupos de ajuda, associações, etc. Passava horas estudando e lendo sobre casos semelhantes e suas terapias. À terapia também recorreu; individual, família, em grupo. Esta última não deu muito resultado. Pelo contrário, aumentou o sentimento de exclusão que Gustavinho já nutria, pois os monitores que ficavam com os filhos dos pacientes, freqüentemente se queixavam que seus materiais didáticos viravam lanche do gulinha. “Gulinha! Que terminologia mais discriminatória e inadequada...” Dizia a mãe. No entanto, acreditava que a ciência era o caminho e continuou nos estudos, nas consultas, nos exames.
Nessas alturas já estava a família perfeitamente formatada e disciplinada. Já tinham mais uma menina, que tiveram quando Ataíde Gustavo completara nove anos. Veio meio sem querer. Quer dizer, queriam muito outro filho, mas também era natural o medo. Precaviam-se, mas nem tanto. E quando veio a notícia da gravidez, o pai até, meio sem graça brincou: “será que o Gutinho mastigou uns preservativos também?”. No entanto, todo temor com relação à menina se desfez quando ela naturalmente mamou no seio nu.

(continua)

2 comentários:

Alice disse...

esperando o próximo !

wilson tonioli disse...

Ok Alice, e se puder me enviar uma imagem daquelas maravilhosas que voce arruma e que tenha a ver com o assunto, agradeço, pois não tive mais acesso às fotos de família além dessa que postei.
abç e obg.
ah, bom trabalho de férias.