segunda-feira, 31 de maio de 2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Você precisa!

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terça-feira, 25 de maio de 2010

O que pesa mais?

O que pesa mais,
um quilo de pedra,
ou um quilo de pecado?
O que lesa mais,
um quilo de sermão,
ou um quilo de fardo?
O que presta mais,
um quilo de unção,
ou um quilo de canto?
O que peca mais,
um quilo de irmão,
ou um quilo de santo?
O que pesa mais,
um quilo de igreja,
ou um quilo de dízimo?
O que gela mais,
um quilo de cerveja,
ou um quilo de dogma?
O que zela mais,
um quilo de crente,
ou um quilo de lei?
O que pensa mais,
um quilo de mente,
ou um quilo de grei?
O que passa mais,
um quilo de tempo,
ou um quilo de uva?
O que vela mais,
um quilo de vigília,
ou um quilo de viúva?
O que pesa mais,
um quilo de chumbo,
ou um quilo de templo?
Um quilo de mundo,
ou um quilo de exemplo?
O que pesa mais?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Recall Teológico (5)

A Convenção Nacional das Igrejas Evãgélicas Faísca de Fogo de Fé, convoca o recall teológico de seus membros e frequentadores, para inspeção gratuita – aceita-se ofertas – dos chicotes elétricos com que foram batizados. Confirmam os montadores que a grande maioria saiu com má fixação dos isoladores na língua, provocando danos sérios a terceiros, a quartos e a quintos. O risco maior em tal desconformidade é a queima das relações provocadas pelos cultos circuitos mesmo com os fusíveis da paciência de baixa amperagem. Com isso, palavras na ponta da língua escapam a todo instante, roubando a corrente principal que faria todo corpo se mover.
A Convenção, em nota oficial, reitera que não se responsabiliza por unidades que não forem vistoriadas dentro do prazo, assim como, faz saber que nem todos os irmãos em trânsito hoje, ungidos ou não, e que apresentam sintomas de incontinência verbangelical, sofrem pelas razões apontadas acima.


Yuri Nabo Cuda
Presidente

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Garanhão Homossexual (da Série, Animais Especiais)

Aos quatro anos de idade Gonçalo deixou a fazenda. Teve uma conversa com a égua mãe – já que pai de cavalo é sempre muito ocupado e quase nunca está por perto – e saiu.
Gonçalo era um Mangalarga Marchador formidável. Mas fazia marchar por, vamos dizer profissão e não por vocação. Não gostava. Dizia aos mais íntimos – pouquíssimos diga-se – que aquele negócio de marchar lembrava cavalaria organizada imperial. Não que ele já tivesse participado de muitas, era ainda jovem, mas daquilo que ouvia dos mais velhos e da própria mãe que contava da nobreza e singularidade da raça e tudo mais. Ouvia que seus semelhantes eram imbatíveis quanto a acompanhar o ritmo alucinante das caçadas e também, na lida com o gado em campo aberto. Para Gonçalo não passavam de vaidades. Deixou aqueles campos por causa das suas próprias; e também pelo seu orgulho. Menos pela chateação dos demais equinos que não lhe ignoravam os modos, do que pelo seu amor próprio e desejo de liberdade.
Quanto à aparência podemos descrever aquilo que se leu nos cartazes espalhados pela redondeza após seu sumiço: “... 'Garanhão' de origem real portuguesa, marrom escuro, expressão vigorosa, olhos escuros e atentos, fronte larga e plana, narinas grandes e flexíveis, pescoço de musculatura forte, crinas pretas e ralas, finas e sedosas, como a calda, com a ponta levemente voltada para cima ao andar; é um marchador mais tenta disfarçar no trote...”. Este último item era de fato o que mais o caracterizava. Cauda de sabugo curto e rijo, como batuta, dava o tempo para a própria coreografia do corpo inteiro. Enfim, Gonçalo era mais do que esse narrador seria capaz de descrever e menos do que possa interessar ao distinto leitor.
Gonçalo era um Garanhão homossexual, mas seus senhores não entendiam assim. Como um excelente exemplar da raça, insistiram até o fim para que cumprisse as coberturas com as mais belas éguas. Porém, para ele, só companheiras; éguas iguais. Assim, começaram a tratá-lo como um animal especial, que para a susceptibilidade de cavalo, especial não é nada especial; Entendia mais como espéciemal.
E a coisa foi ganhando cada vez mais distinção e, como até nos preconceitos aceitos por uma sociedade, a primeira evidencia disso e até mesmo que se auto-denuncia é a linguagem, Gonçalo passou a ser conhecido como Gayranhão. Pronto, aí todos já não precisavam se preocupar mais. Quando se dá um nome ao problema, o problema se enfraquece, e o seu objeto vira abjeto. Não forçaram mais a barra com Gonçalo. Isolaram-no, e pior, transferiram seus poucos amigos machos do cocho.
Apesar de tudo, Gonçalo não sofreu maiores danos. O que lhe importava mesmo era a liberdade, da qual corria atrás. Embora a discriminação galopasse sem barreiras, ainda utilizavam-no para caça. Isto sim lhe perturbava, assim como a indiferença dos outros cavalos, com relação a ajudar na matança de raposas, veados e outros bichos.
Abandonou o lar numa primavera, quando os chacais saem para acasalar e os caçadores se aproveitam dos uivos e descuidos dos machos. “No que depender de mim, esses carniceiros vão fazer amor tranquilos, sem a espreita dos covardes!”, pensou Gonçalo. E como fazia todas as manhãs bem cedo, quando a relva ainda se cobria do sereno e uma nevoa densa cobria a mata que cercava a propriedade, Gonçalo galopou em direção a ela e não retornou mais, desbravando o medo e as superstições, comum entre os Mangalargas, quando a ordem era entrar nestas nuvens.
A fama de Gonçalo perdurou nas cercanias. Para os cavalos mais velhos e honrados, uma aberração irônica da natureza. Para os mais jovens Garanhões, fascínio e mau exemplo, curiosidade e submissão, tudo ao mesmo tempo. Para a velha mãe, retratos e abandono.
De qualquer forma não conseguiram apagar sua imagem. E as imagens são sempre mais fortes para aqueles que não as viram. Tendem a crescer e ganhar maior impressão, para o bem e para o mal. Os que queriam menosprezá-lo, diziam ter ele, assim que fugiu em meio às névoas, tropeçado e quebrado a perna, sendo sacrificado. Os que queriam seu esquecimento, diziam aos filhos que ele era uma invenção, um folclore, um tipo mula-sem-cabeça, que pegava os potros desobedientes. Para os que queriam sua abominação, diziam que se enamorou com outros garanhões e, sem o saber, com o próprio pai, afinal de contas, pai de cavalo é sempre muito ocupado e não reconhece a própria descendência.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

De onde sai

A aranha sai da teia;
a veia sai da entranha;
o escorpião sai da toca;
a broca sai do vão;
a cobra sai do ninho;
o sozinho sai da sobra;
a traça sai do antigo;
o inimigo sai da farsa.
A lótus sai do lodo;
o medo sai morte;
o rato sai do esgoto;
o moto sai do trato.
E a vida vai seguindo.
E o ato sai da rua;
e a nua sai da foto;
e o foco sai da cena;
e a pena sai da ave.
E a vida vai gemendo;
e o berne sai da pele;
e o apelo sai do cerne
e a vida vai sugando
o leite que sai da mama,
da vida que sai do ventre
e da gente que sai da vida.
Prefácio que sai do fim
de mim que nada sai,
senão o pus que sai da cura,
que sai do senso,
que sai do são,
que sai da mente,
que sai da mão.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A Internet no Velho Testamento (3)

Clique para ampliar ou desligue para edificar.

Pô ética (7)

Em que turminha se meteu o secretário,
cujo game travou ironicamente na pista
do contrabandista escondido no armário?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Dunga é só mais um anão

Não sei por que a surpresa diante do inexorável. Refiro-me à escalação dos jogadores do técnico Dunga que vestirão a camisa do Brasil nessa Copa do Mundo. Grupo sem muito brilho, mas com “muito amor pela Pátria”, segundo as palavras do treinador. Mas devemos perdoá-lo. Dunga é somente mais um anão diante do gigante erguido no nosso tempo: o gigante da Qualidade. Com um “Q” mais que maiúsculo, impõe que tudo deve ter o compromisso da excelência, do perfeito, do correto. Gigante gerado com o puro sêmem dos bons.
Para o gigante Q – que tem um “q” de inimigo íntimo – Dunga não é nem uma pessoa; é um processo. Dunga é um processo que deu certo e tudo deve ser semelhante a ele. Dunga é o protótipo do bom; bom homem, bom moço, bom filho da mãe boa e do pai bom, bom profissional, bom amigo, bom filho da Pátria. Quem tem força de lutar contra o Q? Dunga diz: se Q é por nós, quem será contra nós?
A única coisa que Q teme é a vida, com suas imprevisibilidades e suspeitáveis caminhos. E observando que o futebol é como uma metáfora da vida, com paixões, sucessos, derrotas, lutas, metas, jogo-sujo, malandragem, surpresa, malícia, arte, violência, plástica, catarses, trabalho, sorte, orgulho, vergonha... Ele quer corrigi-lo.
O futebol e toda sua alegria e paixão estão com seus dias contados. Não que vá acabar, expurgando a arte, ficará cada vez mais excelente... Mas insosso. Já vemos sinais disso. Se um jogador aplica um chapéu no adversário, o árbitro lhe aplica um amarelo, motivo: desrespeito. Se um jogador vai ao encontro da sua torcida para comemorar o gol, recebe amarelo, motivo: agito e insurreição. Se um craque vai tomar uma cerveja e é flagrado, todas as suas jogadas geniais e seus gols do dia anterior são removidos do noticiário para dar lugar ao sermão e punição dos “Qriticos” que pregam: mais vale um cabeça-de-bagre treinando do que dez craques num bar.
Está chegando o jogo em que o atacante que faz o gol, não poderá comemorar, mas deverá se dirigir ao capitão da equipe rival e lhe pedir perdão, alegando que aquilo é seu ofício e tudo mais, isso na presença do árbitro que só então repõe a bola no meio campo. O drible será proibido. A bola só poderá seguir adiante do zagueiro se for por intermédio de tabela. O intuito final é acabar com os árbitros. Afinal de contas estará incutido nos jogadores que o mais importante é a honradez, o decoro. Talvez precise de alguém só para decidir impasses tipo: “oh desculpe, eu fiz falta em você...”, “não, não, eu caí sozinho...”, “eu insisto, você não cairia se meu joelho não esbarrasse na sua coxa...” “você me tocou? Imagina cara!”. Ou, o centroavante parte com a bola dominada rumo ao gol e de repente pára: “o que houve” diz o árbitro. “eu estava impedido”, “mas nem o bandeira deu!” insiste o zagueiro adversário... Aí aparece o intermediador e decide a parada.
Assim caminha o futebol. O favor será mais importante que o gol; a educação será mais importante que a garra; a moral será mais importante que a torcida. A hipocrisia é mais importante que um pênalti.
Tenhamos paciência. Dunga é só mais um anão diante desse futuro, quando a copa do mundo será – copa do mundo não, copa não é estético, a sala-de-estar do mundo – será uma disputa – disputa também é feio – será uma competição para ver qual é o futebol mais coerente e fraterno do mundo. A seleção não será mais a Pátria de chuteiras e sim a Apatia de chuteiras.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Um filme em Um D

Assisti hoje Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, dos diretores Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (Madame Satã e O Céu de Suely).
Fui levado pela boa impressão dos trabalhos anteriores e não me arrependi. Só me incomodei. Viajo Porque Preciso... É um filme recomendado a todo hurbanoide. É um filme feio, porém, imperdível. Incomodante.
É a visão de um geólogo que viaja pelo sertão nordestino a fim de mapear o percurso de um canal para a transposição do Rio das Almas, único rio caudaloso da região. A crise do personagem é uma solidão tumultuada pela figura inesquecível da mulher amada, com outras que nem podem ser coadjuvantes dadas à desgraceira da realidade de seu mundo esquecido.
Não se sabe aonde começa a fotografia e o filme. As imagens são fotos vivas enquadradas na janela da caminhonete. As pessoas são quase um cenário tamanho é a coragem de encararem a câmera por infinitos períodos, - coisa que até ator tem dificuldade – o que acaba por nos incomodar. Dá vontade ao espectador de responder, mas não se pode e nem sabe o que.
Num tempo em que só se fala em imagens tridimensionais, o filme de Marcelo e Karim nos força a ver, em alguns instantes, imagens em 3D, mas sem os óculos.
Num tempo em que todo esse circo do cinema quer que entremos no filme e façamos parte da fantasia, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, viaja em caminho oposto e faz-nos sentir em uma única dimensão: a dos que não conseguem e nunca vão conseguir, penetrar em algumas realidades deste País e de sua gente.

Tem pó

O que tem muito tempo, tem pó.
O que tem muito pó, cadê?
O que tem muita fé, não vê.
O que tem muito a ver, verdade
e o que tem muita verdade está só.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

Assentado no trono

Assentado no trono é o melhor lugar para pensar. Que me desculpem os românticos e meditadores profissionais. Aliás, meditar não é pensar, ou é? E hoje em dia não se pode mais parar pra pensar, o mundo te atropela. Sei que a maioria não vai concordar e virão, com todo respeito, com aquela conversa que precisamos buscar momentos de solitude, (vejam como é sintomático, a Microsoft, aqui no meu World, não reconhece essa palavra) de reclusão, e que estar solitário não é o mesmo que estar sozinho e bla bla bla. (bla, aqui, é abreviação de blandíloquo, dono de voz branda e suave).
“Mas eu penso muito quando estou fazendo uma caminhada ou quando estou no metrô...”, alguns dirão. Não, neste momento estamos sendo estimulados de fora para dentro e até conseguimos uns insights. Na meditação budista esta palavra é vipassana (vi passando então pensei... Desculpem, não resisti ao trocadilho). O pensamento é algo que vem de dentro para dentro.
Assim, é assentado no trono que podemos verdadeiramente parar para pensar. Se parar para pensar é importante, ainda mais parar para fazer o intestino funcionar. É instante sublime de perfeita interação corpo e mente. A citação latina Mens sana in corpore sano, provavelmente fora construída neste instante. O intestino com bom funcionamento areja a mente. E quando você vai a uma consulta médica, especialmente essas de acupuntura ou homeopatia, eles não te perguntam se você está pensando normalmente, ou se o cérebro está funcionando; eles te perguntam se você está indo ao banheiro.
Os horizontes de serras e os ocasos não me fazem pensar. Só contemplo. Contemplo quando faço daquilo um templo e num templo não se pensa, se adora. Não pensem que os poetas montam suas palavras contemplando as maravilhas da natureza, ou que há lugares especiais para a produção intelectual. Uma pedra sob uma frondosa árvore no meio do mato e com toda sorte de pássaros brigando por seus frutos, é o lugar ideal até você ir até lá e não conseguir ficar mais que dez minutos, pois os mosquitos zoam nos seus ouvidos, quase entrando; a brisa não é tão agradável como você imaginou e a pedra não acomoda sua bunda por mais que você se ajeite.
Existem carismáticos carentes que interpretam cada movimento natural como uma epifania a socorrê-los. “... Se essa borboleta pousar em mim, vou saber que devo ir... Olha aquela nuvem, é um dedo apontando para o alto... Essa pessoa que veio me pedir uma informação foi enviada pelos céus e devo lhe mostrar o verdadeiro caminho...”.
O cubículo do banheiro é o melhor lugar onde até os claustrofóbicos não reclamam. Ali você não tem como dispersar. A porta é sua interlocutora. E porta, como todos sabem é uma porta, não fala. Você pode pensar a vontade que ela vai ficar neutra. Porta não tem preconceitos. Você pensa absurdos e pra ela tudo bem. Nada vai acontecer ali, a não ser o encontro de você com você mesmo e, claro, com sua melhor-pior produção, assim como são seus pensamentos; assim como são nossas intenções.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Como o não-evangélico traduz as coisas do evangélico (3)

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