sábado, 20 de outubro de 2007

Como Enterrar Um Talento


Pegue um filho, teu de preferência.
E logo no primeiro momento,
coloque na cabeça dele
que não deve enterrar seu talento...

Que há um Deus que tudo vê,
justo, e em tudo está atento;
não está aí pra brincadeira
e que vai cobrar o seu talento.

Matricule-o na escola bíblica,
de professores tipo monumento,
de placas, poses e bustos,
que lhe ensinarão o que é talento.

Cuidado na hora de regar:
Bíblia não rima com pensamento,
deve rimar com a santa homilia,
de que não deve enterrar seu talento.

Não hesite de fazer umas podas,
a evitar um livre crescimento;
lugar de dons é na igreja,
onde não deve enterrar seu talento.

Se vierem as pragas das dúvidas,
aplique demãos de ungüento;
agrotóxico necessário
para não enterrar seu talento.

Feche as portas e janelas.
Não o deixe exposto ao Vento...
Nem perto de outras mudinhas,
que só fazem enterrar seus talentos.

Buscar a igreja em primeiro lugar,
quando a seca lhe tirar o alento,
quando a sega lhe tornar mais um
dos enxertos do jardim dos talentos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O início e o quase-fim

Conheça um pouco a Associação Projeto Raízes:
O Integrarte, na Pompeia-SP (atendimento diário de aproximadamente 120 pessoas em situação de rua)
E a Creche no Pari, com 185 crianças.
Bom, não preciso dizer qual é um e qual é o outro nessas fotos.

O comecinho e o finzinho da jornada. O Reino de Deus nos dá alento a lidar com ambos os momentos.





terça-feira, 16 de outubro de 2007






domingo, 14 de outubro de 2007

EDIFÍCIOS

É difícil compreender, mas engraçado pensar: no que se transforma um edifício que um dia foi uma igreja evangélica. Sei que os evangélicos não gostam destas terminologias, mas vou falar: parece que há uma energia excedente que continua no prédio mesmo após a saída da igreja, que, por assim dizer, força uma cumplicidade na futura atividade que ali se instalará.
Vejamos se com exemplos serei mais feliz em explicar tal fenômeno.

Onde era uma igreja evangélica, hoje “funciona” um Varejão de frutas. Pensei: A comunidade deu tantos frutos que agora no lugar dos apelos do pastor tentando vender um evangelho suculento, há muitas bancadas de frutas já quase passadas se submetendo aos apertões de senhoras exigentes, não querendo ter um desarranjo intestinal em troca de baixo preço.

Onde era uma igreja evangélica, agora é um Instituto de idiomas. Aí penso: A igreja falou tantas línguas – não estou me referindo ao Carisma, mas à confusão de mensagens e interpretações, como em Babel – que agora, no lugar dos diversos caminhos e soluções apontados pela comunidade, há um único caminho apontado para o sucesso que é aprender uma another língua e cair fora desse país.

Onde havia uma igreja evangélica, hoje funciona uma serralheria. Penso: a igreja criou tantas legislações, que hoje, ao invés de um conselho ditando normas e aprisionando os espíritos, há um homem de máscara e revolver de solda na mão, construindo grades e portões de lanças.

Onde havia uma igreja evangélica, hoje há uma farmácia. Penso: de tanto a igreja prescrever fórmulas de cura, agora, onde havia um ancião ministrando soluções, há um farmacêutico manipulando remédios para todos os males.

Onde Havia uma igrejinha evangélica, abriram uma lojinha de R$1,99. Penso: alguns crentes confundiram tanto o que é de Graça com o que é banal, que hoje há comerciantes ali vendendo tudo o que é quinquilharias quase de graça, dando a ilusão ao cliente de que saem fazendo sempre bom negócio.

Onde operava uma igreja evangélica, hoje é um Banco: bem, acho que não é preciso dizer o que pensei...

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Prego Rego Ego

Apóstolo após tolo...

Assembléia leia eia!

Ateu teu eu.

Celebrando brando ando.

Compromisso compro omisso isso...

Comunhão com munhão hão!

Conversão versão ver são.

Crente rente ente.

Gratos ratos atos

Igreja reja já.

Imagem age em...

Inspiração pira ação!

Liturgia urgia ia.

Mártires tires rés.

Oração ração ação!

Pastora tora ora.

Pentecostal costal os tal...

Predestinada destinada nada...

Pregador regador dor.

Prego rego ego...

Protestante testa ante.

Recompensa compensa pensa...

Reclame clame ame.

Revelação elação lação.

Talento alento lento.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Para Patrícia (1969-2007)


Sentada num banco



Recostada à parede,
sentada num banco,
assim eu a vi
na última vez que a vi.
Olhando pro longe,
um horizonte, por certo
não era o meu,
nem era o teu,
talvez o dela e só o dela.

Nem estava tão longe,
nem tão recostada;
não estava olhando
e nem era horizonte
o horizonte que via,
talvez era o meu
que ela iludia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A faxina do teatro

Vou retomar os posts, eu prometo (principalmente pra mim mesmo).

O teatro tem "acabado" comigo. Tenho mexido tanto com o corpo que não há idéia que pare no lugar. Estava precisando mesmo de uma limpeza essa minha cabeça. Estava guardando idéias que jamais usaria... Só ocupando lugar. A prateleira dos dogmas, como é metálica e bem carregada, é a que dá mais trabalho, mas também já está quase limpa.
Quando alguém vai inventar um encéfalo-scanner: você coloca a testa, sei lá, no aparelho, seleciona a ideia e ela é diretamente digitalizada, e melhor, organizada.

Opa, umas pastas acabaram de cair... Vou ali já volto.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

terça-feira, 11 de setembro de 2007

BÉLICOS VERSÍCULOS


Uma verdadeira guerra de versículos: o que acontecia naquelas assembléias. Talvez o que também acontecesse na vida cotidiana daqueles crentes; no jeito de se relacionarem com as pessoas, com a Bíblia na ponta da língua, em riste.
Logo de cara, o dirigente naquele dia, solta um Romanos 13.1. Caia em quem cair - pensava - Se atingir a todos, melhor. Camuflado em autoridade, ganharia respeito. À volta de si, precaveu-se em plantar minas terrestres de Provérbios descontextualizados e mesmo de fragmentos de Salmos, que se não matam, quase sempre aleijam o crente.
- Vamos à pauta - diz mais tímido o secretário, pensando consigo que o que valia mesmo ali, era a primeira sílaba dessa palavra.
Eram de todas as sortes os assuntos para aquele dia. Não terminaria cedo mais uma vez, mas todos estavam preparados... como quando numa dessas batalhas bíblicas; só que com o agravante de poder consultar à vontade a Bíblia.
Moisés pede a palavra e dispara um Provérbios 28.13.
- Romanos 1.18 - emenda o irmão Alceu com sua ira santa.
Dona Mércia entra no conflito, defendendo tal acusado com um belo Tiago 2.17 e um Deuteronômio 15.11; que por sinal já deixa muitos feridos e intimidados.
O presbítero Mauro dispara um tremendo Apocalipse 3.16 para os não espirituais.
Nesse ponto já se começa perder o controle porque o irmão Nestor lança granadas de I Timóteo 3.4 - olhando para certo diácono - I Timóteo 3.7, I João 2.6, Êxodo 20.17...
Muito embora o campo já estivesse minado também por alguns aliados do pastor, com alguns I Pedro 2.1, Tiago 1.22, Dona Sônia mira bem nos olhos do pastor e atira um Daniel 5.27, seguido de um I João 2.15. Este tenta se esquivar defendendo-se com uma bateria de I Coríntios 14.40, Filipenses 2.3, mas sente que está sem retaguarda e recua.
Pedindo uma trégua, o diácono Orlando acena com um Romanos 5.1 e ao mesmo tempo ataca com um Romanos 14.22 aos menos progressistas. Mas cai na sua cabeça um enorme I Coríntios 6.12, por não se sabe exatamente quem, pois se encontrava em meio a um bombardeio de versos incendiários como napalm.
O irmão Dráusio, não se conformando por não pensarem como ele, programa um Romanos 12.2 para estourar bem na hora que o assunto dos jovens fosse abordado; bomba-relógio que só os piedosos calculistas sabem manejar sem que exploda em suas próprias mãos. De fato, quando o coitado do líder da mocidade foi soltar seu misselzinho, caiu-lhe Êxodo 20.12, Eclesiastes 11.9 entre outros.
No entanto, a pianista do quarteto, em defesa do agonizante jovem, não se deixa abater e rebate com um temível Malaquias 3.10. Por algum brevíssimo instante houve silêncio, e sons de rescaldo pós-confronto, do tipo cadeiras se arrastando, tosses e cochichos de quem se retirava da fatídica reunião. Ou para manter a diplomacia, ou para não se estreparem também.
Ainda o dirigente tentava recompor a pauta, mas já estava sem munição bíblica. Além do mais, outros haveria ali com arsenal maior que o dele. Verdadeiros biblióides ambulantes, inclementes e destemidos. Eram Êxodo 20. 5b, Salmos 1.1, Salmos 127.1, Efésios 4,29 prá todos os lados.
Apenas o secretário continuava tímido e quieto. Com a cabeça baixa, escrevendo sua ata, tinha o álibi para ficar sem dar-atacar opiniões. Porém, corria entre bocas pequenas, que ficara assim esquipático e abatido, após ter sido atingido em cheio por um implacável Efésios 5.18 há alguns anos. Com a cabeça mergulhada no livro, como quem se esconde na paliçada das balas zunindo - balas perdidas, balas salvas - por sobre a cabeça, ele timidamente pede a palavra com a caneta acima da cabeça, como uma bandeirinha branca e diz, em gesticulações desconexas e nervosas com a mesma caneta – talvez seqüelas - que seria prudente encaminhar a reunião para o encerramento, pois já estava no momento do culto. De certo, há instantes atrás a organista já havia pedido permissão ao pastor para o prelúdio, que agora já se ouvia.

domingo, 2 de setembro de 2007

Doa-se Alma

Bom, depois daquela da "Igreja fecha e vende tudo" segue essa aí, que também não é um 'anuncio' tão novo assim.



Doa-se alma:
mansa e adestrável,
boa e sensível,
com registro do Ibalma.
Não sobe na cama;
gosta de crianças,
indócil com adultos.
Não gosta de tumultos;
ataca ao menor insulto.
Possui algumas manchas,
também umas esperanças.
Atende a comandos:
junto! Pega! Morta!
Entregamos lavada,
vermifugada e vacinada.
Não é da raça penada,
mas guarda território,
mesquinha e medíocre.
Porém, se apega ao dono...
Dá a vida pelo dono.

Os corpos interessados,
tratar com proprietário.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Igreja Fecha e Vende Tudo

Igreja anuncia que vai fechar e coloca tudo à venda. Embora leve em seu nome a palavra “graça”, lembra que cobrará pelo material, para o caso de algum leigo entrar atraído pelo título na fachada e depois, quando for cobrado, não denunciar a instituição mesmo que já falida.
A liderança da tal igreja lembra também que não há um preço fixo; apenas um mínimo estipulado. A melhor oferta leva.
Dentre os materiais estão:

1-Um púlpito em madeira maciça, com versículo bíblico esculpido em baixo relevo – ou baixa relevância, depende do ponto de vista – com algumas rachaduras de cima abaixo, provocados pelos golpes frenéticos dos pregadores, como que querendo rachar mesmo com o texto bíblico.

2-Dois gazofilácios em compensado – assim como os cheques – revestidos com folhas em mogno em perfeito estado. Há muito que já não vinham sendo usado, pelo menos depois do surgimento das transações on-line. Possui um fundo falso onde eram guardados os valores maiores, para o caso de outros ladrões vindos de fora surpreenderem quando do ato de culto.

3-Bancos em embuia (uns 150); todos bem usados, com manchas de queimados em vários pontos (fomos informados de que é devido aos membros esquenta-bancos, adjetivo este que desconhecemos se significado, enfim...); Todos bem riscados, garranchos de crianças torturadas sem o que fazer, forçadas a ficar sentadas quietas; chicletes sob o assento. Requerem reforma. Apenas os genuflexórios estão em ótimo estado. Só precisam de um oleozinho nas junções.

4-Um quadro a óleo 3m x 1,50m que ficava sobre o batistério. A moldura requer pintura mas a tela ainda está boa. A pintura, que trás uma paisagem do Jordão, está um pouco desgastada; o céu que era azul está mais pra nublado. O João Batista foi apagado, mas não se nota de longe. Há sim, uma ave enorme que lembra um pombo, desproporcional às demais figuras; aceito se for encarado como arte sul-real. Mas o que parece mesmo é que o “artista” quis por o bicho em primeiro plano em detrimento das demais realidades.

5-Um órgão precisando de afinação e reparos externos, uma vez que só estava sendo usado como apoio para inúmeros objetos; vasos, bandejas de doces e salgados em dias de festa, pandeiros, cabos, microfones, etç...Nos teclados está faltando um dó.

6-Doze cadeiras de espaldar reto, almofadadas. Sendo aonde sentavam os anciãos e chefes da igreja, foram muito solicitadas precisando assim de reforma. O tecido também está desbotado devido ao foco das luzes constantes.

Aos interessados, a ex-instituição oferece também, além dos móveis e utensílios, a prestação de serviços dos profissionais e voluntários que com suas teorias e vivências, adquiridas ou herdadas, colocam-se à disposição no mercado de treinamento, auto-ajuda, RH de outras empresas mesmo que seculares.

domingo, 19 de agosto de 2007

Casal Vinte


Vinte pedir grana,
Vinte ludibriar,
Vinte armar uma cama,
Vinte arruinar.
Vinte e-vã-gelizar,
Vinte mostrar como é que é,
Vinte convidar,
Vinte ensinar uma profissão de fé.
Vinte tirar a paz,
Vinte mostrar como é que faz,
Vinte mostrar uma mansão,
Vinte pedir que me ame,
Vinte cantar uma canção,
Vinte levar pra Miami...

Vinte pedir uma fé,
Vinte arruinar tua paz,
Vinte mostrar uma Miami,
Vinte ensinar uma canção,
Vinte levar uma grana,
Vinte tirar tua fé.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Um minuto de barulho

Porque bombas continuam a cair,
façamos um minuto de barulho:
o silêncio de morte a nos distrair,
trai e faz achar que é orgulho.

Porque bombas de todos os tipos,
esfacelando não só uns corpos,
mas umas dignidades transeuntes
duma cena de horror sem inocentes.

A resig-nação cheira a putrefatos:
consciências em decomposição;
cínicas, acompanham na televisão,
laivos de seus próprios artefatos.

Tantos outros Homens-bomba,
sutis, cingidos de suas bombas:
ganância, gravata, vangloria...
Minam o mundo, aleijam a história.

Um minuto de barulho;
mandar pros ares essa paz;
explodir os bares onde comem...
Num minuto, eco aos que somem.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Congresso de Psiquiatras



Fui fazer a 'cobertura' de um congresso de psicólogos e psiquiatras:

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Bem no meio da solidão

Bem no meio da solidão
e bem dentro de tudo
achei meu corpo mudo,
sujo de esfolar no chão.

A mão não se fechava
no que restou de pulso,
nem direito se encaixava,
a vida e o ato avulso.

Bem no meio da solidão,
vi-me feito boneco alegre
que acha graça na ilusão:
existir sem que se quebre.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Perdoe a Deus

Perdoe a Deus, irmão. O que Ele te fez ou deixou de fazer foi certamente sem querer. Sem querer te magoar. Perdoe-O se Ele está de marcação com você. Perdoe-O se feriu tua justiça; se contrariou teus credos. Perdoe a falta de consideração para com teu trabalho; o indeferimento às tuas solicitações. Perdoe o estrondoso silêncio, a única resposta que obténs. Perdoe se Ele não correspondeu à altura de tua fé. Se você seguiu às regras e nada aconteceu; se olhando para trás, vês que tua vida não deu certo. Perdoe-O. E tanto mais olhas os bem aventurados, os agraciados, os reconhecidos, os amáveis, tanto mais se acha perseguido, sem graça, desprezível. Geras assim, combustível para o motor que traciona tua vida, queimando óleo de rancor, a produzir escura fumaça de teu próprio sacrifício como oferta ao Bem Supremo. Da mesma sorte sufocas assim, do eflúvio tóxico de amargor, a tantos outros ao redor.
Por certo, hão de estar cheios de razão aqueles que assim apertam seus corações na prensa das mágoas de Deus. Você tem toda razão em ficar de mal de Deus, pois ela, a razão, é uma poderosa máquina de julgar as coisas da qual você dispõe. Ela é capaz de processar os dados e os fatos, ela separa o bem do mal, ela seleciona o trigo do joio, ela ordena e catalisa maldições e graças... Só ainda não tem compreensão do por que Deus ainda se mostra tão obsoleto e lento em Seus processos.
Perdoe a Deus, de vez. Sem se valer de razão mesmo. Não que você vá oferecer mais uma chance a Ele, como professor que ao aluno ameaça de reprovar se não cumprir suas lições. Não encoste Deus na parede. Já O encostaram a um madeiro por uma vez, precisamente porque não o perdoaram. Não perdoaram porque falou e agiu ao contrário do que esperavam, ferindo e subvertendo toda uma ordem vigente.
Perdoe-O, pois se errar é próprio do humano, Ele, em se tornando Humano, fez-se então Erro. Se não compreendes, perdoe. Decerto não agiu como um verdadeiro deus... Ao invés de, das mais elevadas regiões celestes, julgar de uma vez, com severos castigos, preferiu demonstrar fraqueza e generosidade descendo aos mais baixos níveis da terra e ter paciência com todos. Ao invés de exigir que lhe fosse sacrificada uma virgem após a outra, a satisfazer, com o sangue inocente, sua volúpia divina, preferiu Ele mesmo sacrificar-se, imaculado, para espanto de outros deuses e criaturas pelo imponderável de seu ato.
Perdoe-O por não ser o Deus de tua imagem e que constantemente litiga com este. Dos muitos caminhos que tens para a relação com Ele, o melhor é o do perdão. Perdoe a Deus irmão.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Montanha que Remove Fé


Dona Efigênia perdeu a fé.
Não sabe se perdeu a coitadinha,
ou se lhe roubaram;
ou ainda, se era fé
a fé que tinha.
Sabe que descuidou,
que não tomou conta
e até a emprestou,
mas de bom coração.
Pequena ou não
era sua...
Não tinham o direito
de lhe subtrair.
Ela sua
pra viver sem ela
e vive a se trair,
se culpa pela mazela
da montanha que remove fé...
Dona Efigênia se consola
desconfiando a coitadinha
de que não era fé
a fé que tinha.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Mas qual é o Cristo Verdadeiro da Igreja?

Segundo um documento oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, emitido na semana passada, a Igreja Católica é a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Tudo bem, mas qual é o Cristo verdadeiro da Igreja?
Não fico melindrado com a declaração; na verdade pouco me importa, embora reconheça: uma declaração dessas é como sair batendo panela nas grades das jaulas de feras que se esforçam para conviver no mesmo canteiro do circo.
Se for importante saber onde, quanto mais ainda é saber quem. Se Cristo cabe em algum lugar e, de alguma forma - não tenho a mínima idéia como – ficasse provado que este lugar é a Igreja Católica, então se resolveriam os rachas entre cristãos com todos se mudando para lá. O adesivo para se colar nos carros então seria: sou seguro por ser católico. No entanto, proponho a crise do saber quem é o Cristo verdadeiro da Igreja - e no que concerne a este saber, tanto é prejudicial a certeza caduca, quanto a ignorância assertiva. Ambas tramam divisões desde sempre.
Odeio ter que usar passagens bíblicas, como se fossem corda de varal para eu pendurar o texto que escrevo: apoio e visibilidade. Porém, o faço na intenção de estimular uma pesquisa. É mais ou menos o que Jesus conversava com a mulher samaritana: ela queria o onde – se deveria adorar; Ele queria o quem: “... se soubesses quem sou...” (João 4.10) Ela pergunta: “...onde tens a água viva?” (João 4.11) Jesus não resp-onde. Como quando falou do Reino de Deus: não é o onde que lhe imprime a significância, mas a pessoa que o transporta, e como o transporta. Primeiro com e em Jesus; depois, plantado nos discípulos.
Pensemos então no quem; na pessoa de Cristo: todos os cristãos, contra a ordenança da lei, fizeram suas imagens de Cristo. Há um Cristo emoldurado e pendurado na parede do nosso entendimento. Há um Cristo olhando de frente, bonito, olhos claros, barba e cabelos aparados, dalmática imperial; religioso e incisivo. Há um Cristo sem cara, real, talvez feio, histórico; questionador. Há um crucificado com um crepúsculo atormentado ao fundo. Há um ensangüentado, vivo e agonizante. Há um ressuscitado, triunfante. Há um milagreiro. Há um aliado. Há um sócio. Há um justo. Há um gracioso. Há um pai. Há um nome. Há uma marca. Há um deus... E tantos outros. Para cada um, um lugar. Cada cristão busca o lugar mais a ver com seu Cristo, pois sua imagem de Cristo, na verdade é pintada num espelho segundo suas feições e interesses. Tudo que produz depois vem contaminado do seu Cristo; ninguém escapa disso. Como alguém já disse: “No princípio era o verbo, no fim o chavão.” Você vai dizer: “ah, então isso que você escreve também está contaminado...”. Sim. Feliz foi o profeta Jonas que conscientemente pregou o que não queria.
Qual é o Cristo verdadeiro da Igreja? É terrível, mas a imagem parece ser mais forte e impressionante do que o Ser mesmo. Isso é um absurdo, pois estamos falando acerca do Cristo, em quem tudo subsiste. Nenhuma imagem poderia sobrepor-se ao Seu Ser, por mais próxima da verdade. No entanto, não tendo compreensão do Ser mesmo, fazemos da impressão um simulacro do Ser em nós e para nós.
Bem, isso já está ficando meio complicado além de chato. O que me preocupa mesmo é: que Cristo eu pinto, para meus filhos, para meus amigos, para mim mesmo? E a partir daí, onde me obrigo a fazer meu abrigo? E como quero que sejam e se portem as pessoas que comigo comungam? Qualquer Cristo que eu creia, mas que não me liberta e tampouco deixa o meu semelhante seguir em frente, livre, é uma estampa ordinária, como garatujas ou imitações bizarras de obras-de-arte que, coladas numa parede, compromete e faz perder a beleza de seja lá qual for o lugar.
Deus me livre da esquizofrenia espiritual: crer num Cristo e conviver com outro inexistente. Crer num Cristo e não achá-lo onde me encontro, portanto, falando coisas estranhas e ouvindo coisas estranhas. Supor que o Cristo que vejo e contemplo com meus olhos é o tudo de Cristo e cabe perfeitamente na sala medíocre da minha compreensão...
Abandonarei isso sim, essa minha paliçada onde me protejo e me defendo dos meus inimigos em Cristo. Fugirei isso sim, como um claustrófobo angustiante de qualquer lugar de Cristo, a fim de respirar o ar fresco da liberdade em Cristo; vê-lO e quem sabe, lhe dar um “oi”.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

FALSA VALSA

Olha pessoal, o que eu achei, numas coisas de 2005. Uma letra que o Paulo Rocha fez uma valsinha. Vejam o que acham:

FALSA VALSA
Wilson Tonioli e Paulo Rocha

Hoje eu não vi o lão;
hoje eu não vi o Lino
e nem vi a cor de on,
como cantarei um hino?

Se falta o sopro a vida amarga;
falta a flauta doce sons;
nessa pauta nenhum sol...

A harmon ia, mas não foi.
De que vale se obo é?

Tudo sintetiza dor,
se o Maestro lá não for.
Basta um gesto teu e vou...

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Bosta Ajuda

De antemão peço perdão pelo título tão aparentemente chulo. Até tentei outros, mas um título deve ser fiel ao texto o máximo possível, ainda que não cheire bem.
É que esses dias tive um lampejo de
alegria, como um fósforo que se acende numa escuridão, ao ler um noticiário, desses que de tão ordinários para nós aqui do ocidente, quase não arrumam um espacinho no jornal – até mesmo já ninguém liga mais para os homens e mulheres-bombas que diariamente explodem no Iraque... O informe era de que lá na china, na cidade de Nanjing, capital da província de Jiangsu, no extremo leste do país - segundo o tablóide Kuaibao - uma mulher, enquanto colocava roupas no varal, despencou do sexto andar e fora salva por um volume razoável de bosta onde operários faziam limpeza da fossa. Seria tragicamente hilário se se tratasse de tentativa de suicídio, pois se somariam motivos ainda mais repugnantes para a infeliz continuar tentando dar desfecho à sua vida; mas não foi o caso. Foi acidente; então podemos dizer que não apenas foi ajudada como foi efetivamente salva pela bosta. (que bosta, o corretor ortográfico do micro, mostrando sua faceta hipócrita, fica fazendo esse tracinho vermelho na palavra protagonista do texto, como se não a conhecesse, ao passo que aceita tantas outras aversivamente piores.)
Foi inevitável não pensar nas publicações de auto-ajuda - que borbulham triunfantes hoje em dia – e seus bem sucedidos escritores já pensando nos próximos sucessos:
Acredite Na Bosta Que Há em Você.
Você Está Na Fossa? Sinta-se Vivo!
Transformando Bosta Em Ouro.
Mexeram na Minha Bosta.
Merda e Dream: Só Uma Questão De Posicionar As Letras

E assim vai. Porém, o que eu queria falar mesmo, se já não abandonaram a leitura, não é bem o caso de auto-ajuda. Mesmo porque, se tem comprovado que esse tipo de livro ajuda mesmo ($) o escritor. O assunto, o qual talvez já fiz passar por esgotos desnecessários, é mais especialmente sobre o que vou chamar de ajuda quem vem do alto. (taí... Um título, quem sabe, melhor. Ou não, pensariam que fosse sobre controladores de vôo e deletariam)
Antes que me chamem a mim de fingido, vou dizer que não foi propriamente porque uma mulher, lá na china, de maneira tão inusitada quanto milagrosa escapou da morte, que tive esse lampejo de felicidade. Mas porque minha auto-estima subiu um degrau rumo ao patamar da crença de que posso sim fazer alguma coisa por alguém, por mais incapaz ou b... Besta que me sinta. Não é simples? Se até bosta salva, nós que somos bem melhores que isso não seremos capazes de ao menos ajudar? Se há alguma falácia nisto gostaria de saber. E olha que nem precisamos como heróis, sair em busca por aí a quem possamos socorrer. Pode deixar que, se me permitem a alusão, os necessitados caem em cima da gente e, na maioria das vezes, o que temos a fazer é tão somente não sair de baixo; reduzir impactos.
Não dê descarga nesse texto sem pensar um pouco; mesmo que seja no banheiro, enquanto tentamos convencer nosso intestino como a nós mesmos, preguiçosos, a acordar.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Palíndromos; alguma teoria

Aliás pessoal, já é hora de vcs conhecerem um pouco mais sobre a arte bestial do palíndromo.
Segundo sua classificação:

Perfeitos: aqueles cujo acento agudo ou tônico coincidem em ambas leituras.
Ex. O CID É MÉDICO; ÓPERA AR E PÓ ; A GRAMA É AMARGA
Comuns: aquele em que a acentuação é ‘desprezada’ na leitura inversa.
Ex. SÓ DADOS; O AFRO ÓRFÃO.
Líricos: quando sugere uma atmosfera poética ou remete a um sentimento.
Ex. RIR E FERIR; ÓDIO DOIDO.
Pessoais: quando faz menção de uma ou mais pessoas.Ex. Ó GOLIAS, ADIAS A SAÍDA...SAI LOGO; LEVÍ NO PSI DISPONÍVEL. MERTON NO TREM
Reticentes: aqueles que ‘pedem’ uma continuação.
Ex. E DE PÉ, PEDE (notem que é um reticente Perfeito); SAI E DIZ IDÉIAS.
Misteriosos: Também conhecidos como ‘Tudo a vê’, esses palíndromos intrigam por fazerem sentido.
Ex. SORVI LIVROS; ASSAM MASSA; O RUDE É DURO (não confundir esse último exemplo como um palíndromo Pessoal, pois Rude nesse caso é adjetivo)
Antagônicos: Não menos misteriosos, só que sugerindo antagonismo.
Ex. TUCANO NA CUT; A CARGA DA GRAÇA
Morais: esses transmitem uma moral ou um valor.Ex. ORAR É RARO; SAÍDAS SADIAS. Coloquiais: Também conhecidos como ‘Pseudos-palíndromos ou ‘Forçados’; na fonética coloquial estão corretos, mas há erro ortográfico.Ex. SÓ DÁ LOCO NO COLADOS ('colados' é o nome do grupo de jovens do Raízes) a palavra correta seria ‘louco’; O GECA CEGO.
Sensuais: Ou também ‘eróticos’. Esses primam pela malícia populesca.
Ex. SE DÁ DUAS... SAUDADES; Ó, SAI DA SAUNA A NUA SADIA...SÓ
Poliglota: os que misturam idiomas.
Ex. LIA MEU EMAIL

Vamos ficar por aqui, por enquanto. Vale lembrar que este bloguista não se responsabiliza pela eventual dependência que essa prática pode causar. Isso aqui é apenas uma demonstração de amor pela nossa língua e uma homenagem.

Wilson tonioli
Personal palíndromo trainer

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Crente Cabeça

Para ler numa golada só:


Crente Cabeça
no meio da massa
não diz o que pensa
só para o comparsa.
Crente Cabeça
não joga conversa
recicla sua prosa
a imagem conserva.
Crente Cabeça
um bicho de raça
ninguém lhe entende
mas sabe a beça.
Crente Cabeça
critica a exegese
não faz catequese
dialética curte.
Crente Cabeça
adora pensar
e pensa que pensa
fértil pensamento.
Crente Cabeça
flerta com a arte
pisca pra fé
foge com a razão.
Crente Cabeça
cabeça aberta
cai tudo de dentro
peça por peça.
Crente Cabeça
de Bíblia na mão
nova tradução
segundo o que pensa.
Crente Cabeça
todos lhe invejam
ninguém o deseja
do lado na igreja.

domingo, 24 de junho de 2007

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Parada ou Marcha

Parada ou marcha?
Ontem me perguntei.
Marchar com os Hernandes
ou ver a parada gay?
Homens vestindo mulher
ou fera vestindo homem?
Gritos na Paulista desvairada
ou sermão da paulista em Miami?
Marcha ou parada?
O pecado escancarado do traveco
ou o pecado travestido do evangélico?
O que peca e mostra
Ou o que pega e esconde?
O que sobe na cama e abusa de si
Ou o que sobe na fama e abusa do outro?
Homem que ama outro homem
ou homem que ama a si próprio?

Parada ou marcha, aonde vou?
Mil roupas visto e torno a tirar...
Indecisão de pecador que sou,
mas sem a coragem de me mostrar.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Knut e Nós

Kleito: rejeitado pela mãe e
ameaçado de morte.


Perguntei ao Karl, um grande amigo alemão – e talvez único da espécie – se knut significava alguma coisa nessa língua; não significa nada, ao contrário do famoso ursinho Knut de Frankfurt, que nesses dias tem chamado a atenção do mundo, pois nasceu em cativeiro e fora rejeitado pela mãe.
Porém, ele me deu outras duas palavras parecidas nas quais vou, por enquanto, me agarrar: tem knoten que é nó – o que há em minha cabeça com certas manifestações do mundo. E knute, essa mais parecida, que significa chicote; açoite – o que merece o cínico dorso da sociedade, que é capaz de sustentar desgraças humanas, mas que é demais para suas forças carregar uma comoçãozinha de pelos brancos.
Voltando ao Knut, o que fez aumentar a euforia popular e o drama do animalzinho, foi a solução trazida pelos ativistas de sacrificá-lo – vá ser ativo assim lá longe. Isso lhe deu notoriedade e proteção. Provavelmente vai viver muitos anos num parque estadual protegido por câmeras comendo lebre e anchovas do mercado e morrerá da doença do mimo.
O que me dá knoten (nó) na cabeça, estrangula minha compreensão e, ao mesmo tempo, knute (chicoteia) minhas costas é a notoriedade e proteção que falta a tantos outros seres que vivem no mesmo habitat que nós e não fazemos conta; só não são tão fofinhos, mas de igual sorte, foram também rejeitados e a qualquer momento poderão ser sacrificados. Os mimos? Também os tem, só que apenas no papel.
Vamos a um noticiário que circulou num jornal de São Paulo; só que ao invés de Knut, o sujeito – ou objeto – será Kleito, um menino nascido de mãe-solteira, cujo pai debandou fugido de traficantes e hoje o mamíferozinho mora numa periferia entre tábuas, ratos e esgoto a céu-aberto. Sua mãe até tentou se livrar dele, mas se refez da maldade...

São Paulo, Brasil - Kleito, o popular filhote de homem do zoológico da cidade, fez sua primeira aparição em público, nesta sexta-feira, 23, que foi presenciada até por um ministro.
Equipes de filmagem de todo o mundo acompanharam o evento, o qual também foi transmitido ao vivo durante uma hora pela Rede Globo de televisão. Nos primeiros momentos, o menino se escondeu atrás das pernas de um funcionário do zoológico, mas logo perdeu a timidez e se apresentou às câmeras.
Seu tratador, Thomas Athitud, chegou a dormir na jaula do menino com medo de que alguém o raptasse. Afinal, Kleito é uma celebridade no Brasil.
O menino ganhou um programa próprio de televisão e ficou ainda mais famoso depois que ativistas protetores da espécie disseram que ele estava sendo “mimado” pelo zoológico. Os tais disseram que seria melhor sacrificar o menino do que acostumá-lo demais com seres humanos, que não o estariam preparando para um mundo de balas-perdidas, abusos, drogas, etc. O zoológico da cidade já esclareceu que isso não vai acontecer.
Sua primeira aparição pública nesta sexta-feira foi presenciada até pelo ministro do Meio Ambiente, que acariciou o bichinho.
Um jornal sensacionalista, de maior tiragem no país, chegou a publicar nesta semana um pôster colorido de duas páginas de Kleito.
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Vamos organizar nossas caravanas nas escolas, igrejas, comunidades locais, para ver Kleito também, antes que seja posto em liberdade e morra vítima de mimo...
Ah, e não se esqueçam de entrar nos seu orknut.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Vergonha Boa, Vergonha Vergonhosa





Quando aceitei ser chamado de crente há alguns anos, sabia o que vinha pela frente, mas me orgulhava. Nesse tempo éramos crentes; pessoas que cantavam hinos e carregavam Bíblia, mas que se alguém nos desse ouvidos por um tantinho, logo veriam, acreditávamos, que também estávamos dispostos a inovar a maneira de pregar; trancar no guarda-roupas alguns estereótipos junto com os ternos – só não jogamos as chaves fora - tínhamos canções adequáveis a jovens, pelo ritmo e pela letra que pretendíamos ser parecidas com MPB. Pretensão. Ao menos aos nossos jovens agradavam mais. Estávamos felizes em sermos crentes assim e estar no “mundo” com esse título nos dava uma vergonhazinha boa.
Então, deixemos esse pretérito imperfeito, embora sincero, para falar logo o que quero. Uma sensação de urgência para com tudo tem me abatido ultimamente que devo dispensar sempre as introduções mais detalhadas.
É sobre a vergonha boa que sentia ao ser chamado crente; ao ser pego com uma Bíblia em lugares impróprios que causavam estranheza pelo surrealismo. Ou a própria maneira de conversar, que nos traia e de repente alguém alfinetava: “ele é crente”. Vergonha boa, como um pobre coitado, que encarregado de uma tarefa importante por alguém que lhe é importante, sofre as pulhas só pela glória e orgulho que lhe dará ao ver o espanto desses que lhe zombam, quando anunciar quem é que lhe pede e com que intimidade.
Depois vieram os cristãos. Nada mais que os crentes-cabeça. Aí não se via mais nos textos, letras de músicas, pregações, o adjetivo crente. Alegavam: “ora, crentes são todos que crêem; cristãos, apenas os seguidores de Cristo, de fato”. Além do mais, crente se tornou pejorativo; indivíduo não dado ao pensamento, à reflexão; pio apenas. Incapaz de trazer uma contextualização, – palavra já desgastada vão aí uns vinte anos - uma socialização, uma reflexão, um Evangelho Integral – isso me lembrava Evangelho tipo B, tipo C – sequer poderiam ser representantes dignos da Reforma Protestante. Para alguns já não bastava ser convertido, teria que ser reformado – a fachada especialmente, mudava bem.
Por motivos já mencionados, não vou esmiuçar os investimentos em cursos para liderança, congressos para pastores e líderes, encontros com PHDs importados e suas novidades, etc. Eu mesmo, em épocas de seminário – e até hoje – recebo folders, muito bem confeccionados, oferecendo tais programas. Nunca consegui pagar pra ver. Via que irmãozinhos mais simples não se davam sequer o luxo de portar um desses anúncios e ficavam olhando para aquilo quem sabe pensando o quanto estavam ficando para trás, enquanto outros veteranos metidos a líderes explicavam os temas, os preletores, etc, em conversa de intervalo. Iam e criticavam igrejas que não mandavam seus seminaristas; sem visão – e provavelmente sem dinheiro também.
O cristão era esse, que se orgulhava então de, junto à sua Bíblia, trazer também um Marx, um Nietzsche, um Freud, uma Folha de São Paulo.
Esses ventos todos foram separando ainda mais, como o perdão da palavra, o jegue do tigre. Segregando crentes e cristãos. Os crentes de fora e de dentro de nós foram sendo esquecidos, preteridos, mas não suprimidos.
Vieram então os evangélicos. Produto duma mistura disso tudo com um pouco mais, tudo batido num liquidificador cuja vitamina é tomada pela sociedade sem coador, passando bagaço e, pior, impurezas. A onda gospel, como um desses ingredientes, fez bem e fez mal. Trouxe jovens para as igrejas, mas transmitiu a Boa Noticia como uma matéria do Fantástico, com fantásticos artistas e seus cachês fantásticos.
Hoje ninguém mais nos alfineta como crentes, mas nos acusam como evangélicos. Aí é que dá aquela vergonha vergonhosa; que se eu não fizer alguma coisa, um dia vou acordar todo vermelho, dos pés à cabeça. Iria procurar os médicos, os dermatologistas, os especialistas, os psiquiatras, e ninguém, por fim, poderia fazer ou dizer nada de tal patologia, mesmo com todos os exames possíveis feitos; um tipo de alergia por intoxicação ou virótica, uma seqüela psicossomática, todas estas conjecturas eu, numa maca, acompanharia os médicos se debatendo e, por fim, se dando conta se tratar de uma inauguração de doença. Qualquer coisa resultante de um trauma muito grande tendo como origem uma experiência vexatória; uma vergonha vergonhosa insuportável.
Como não teriam certezas em curto tempo, sobre a possibilidade de contágio, e porque o vermelhão só fazia aumentar, colocar-me-iam de quarentena trancafiado. Nesse dia não poderei fazer mais nada, e mesmo se, lutando contra todo esse mal que me abatera, fizesse algo ou dissesse algo, quem daria crédito? E, para minha pior desgraça, diriam que eu estava em pecado e enviariam homens e mulheres-de-Deus para orarem por mim; atrás da porta é claro.

Não somos uma corporação que devemos nos defender uns aos outros acima de tudoe antes de qualquer coisa. Somos um Corpo, o Mistério figural de Cristo no mundo, que muitos tem querido esvaziar do seu sentido e significado.
Saiamos a pregar o Reino de Deus e defender o Evangelho de Cristo: loucura para os gregos, lucro para evangélicos.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

vi SITE-nos

Aí gente, é com atraso que publico o Site da Associação Projeto Raízes.
Ficou bem legal.
Coloque aí no seu favoritos e ajude a divulgar. Também tem um videozinho do Integrarte, que é um dos nossos projetos.

abçs
wt

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

igreja laranja

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

REINTEGRAÇÃO DE POSSE

Fica determinado em última instância,
por Juiz Supremo, desta e de outras comarcas,
sob cuja jurisdição estão todos os âmbitos,
Poder competente em qualquer circunstância,
a total e irrestrita Reintegração de Posse
da última Palavra e todo tipo de feudos,
a Quem de fato e de direito pertencem,
mas que nos últimos tempos constituem,
objeto de usurpação por parte de pseudos
proprietários e suas declarações,
detentores de falsas procurações
do verdadeiro Dono de todas as coisas,
sejam elas de ordens materiais,
ou, em maior dano, espirituais.

O presente e irrevogável aviso
a todo posseiro estróina visa,
que no exercício de suas funções,
tomou às custas de alheias aflições,
posse de bênçãos supostas,
que se fizeram maldição
pelo ungir da frustração;
posse de terras prometidas
que se mostraram áridas
pela secura da realidade;
posse de palavras proféticas
que vazias se derramaram,
inglórias de unções fatídicas;
posse de coisas impossíveis,
de coisas improváveis,
que de maneira impositiva
ao Juiz se requereu com voz altiva,
mesmo que sejam, ordens essas,
levadas por multidão de coitados,
vítimas de políticas promessas,
por lobos falazes persuadidos.

Fica, de igual modo, determinado,
que é de inteira responsabilidade
desses atrozes atores,
o ressarcimento do prejuízo causado
aos que lhe deram credibilidade
e com isso aumentaram suas dores:
de altíssimos pináculos pulando,
atravessando desertos inóspitos,
em mares fechados se afogando...
Cegos guiados por vozes de púlpitos,
adquiriram bens alienados e até,
hipotecando seu próprio bom senso,
se vêem inadimplentes em descenso,
pagando com altos juros a falta de fé.


A presente sentença
tem validade indeterminada
e conclama a todas as partes
direta ou indiretamente arroladas
nos autos desse processo,
bem como, outorga poderes,
de expedir alvará de soltura
imediata e sem ônus algum,
a todos quantos se acharem
feitos reféns da própria ,
até que o Reino Novo,
pela instrumentalização do amor,
ganhe instauração plena
e faça verdadeira libertação.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Conceitos


Alegoria: A alegria de brincar com legos.
Alienação: Atitude típica das hienas, de concordar de forma resignada, em ficar com a sobra daquilo que os leões deixam.
Antagônico: O que se opõe às antas.
Anti-semitismo: Ser contra tudo o que é pela metade ou parcial.
Alquimia: Carta para um gatinho de estimação que sumiu após ter tomado uma poção estranha.
Antologia: Reunião de muitas antas.
Apologia: Defesa de Apolo.
Bulimia: Um gatinho chamado Buli que come como um leão.
Calvinismo: Doutrina que afirma que alguns já estão destinados a ser carecas.
Compulsão: Munheca inchada de tanto contar dinheiro.
Depressão: Estado a que se leva o costume de andar muito depressa.
Diagnóstico: Aqueles dias em que você constata consigo mesmo que não sabe de nada...E nem poderá saber.
Diverticulite: Inflamação do órgão que produz o bom humor.
Dízima Periódica: Procedimento de dar o dízimo de vez em quando, contudo, infinitamente.
Dogma: do latin-do, Dog má; Uma cadela brava que não aceita estranhos.
Ejaculação Precoce: Comportar-se como um jacu antes do tempo.
Evangelical: Marca de um produto à base de cálcio, usado para branquear ou limpar uma fachada.
Estereótipo: Um tipo cujas tendências é de falar sempre as mesmas coisas, embora por canais diferentes.
Falácia: Estabelecimento de comércio dos remédios para língua.
Fenômeno: Acontecimento atípico que une os feios às belas num castelo qualquer.
Fornicação: Peixe assado em forno não convencional.
Globalização: Politização do mundo conforme a Rede Globo idealiza.
Grupo de Risco: Escola Estadual de pichadores.
Idiossincrasia: Maneira idiota de cada indivíduo reagir a uma azia.
Iluminismo: Filosofia desenvolvida na Rua da Consolação em São Paulo.
Incesto: Prática do basquete em família.
Inconsciente Coletivo: Desgovernado ônibus em que todos um dia vão entrar.
Inteligência Emocional: Micro-computador que chora quando perde a placa-mãe.
Monoteísmo: Doutrina que se propaga apenas por um canal.
Otimismo: Crença exagerada no time que torce.
Panteísmo: Doutrina propagada pela Rádio Jovem Pan.
Paradigma: Procedimento criado por Pelé na cobrança de pênalti, que se tornou um padrão universal para iludir um guarda-metas.
Parceria: Se não fosse impar dar sem receber.
Patologia: Doença que ataca os patos.
Pentecostal: Pente para os pelos das costas.
Pessimismo: Doença no pé que impede o movimento.
Pós-modernismo: Um ponto depois do Masp.
Proselitismo: Retórica da prosa-fiada para convencer alguém.
Psicagonia: Dor-de-barriga psicológica ao invocar entidades estranhas.
Reforma Protestante: Obra parada com a greve dos trabalhadores exigindo igualdade de tratamento entre os diversos cargos.
Terminologia: Terminal onde se tem acesso a todos os termos do mundo.
Transcendente: Transportadora de banguelas que atende fora das zonas de entrega.
Transtorno Bipolar: Patologia que adquire a pessoa que mora em Oiapoque e trabalha em Chuí.
Tripulante: Atleta praticante do salto triplo.
Vida Sedentária: Forma de vida em alguns seres, que morrem de sede, mas não levantam da cadeira para pegar um copo d´água.
Utopia: Um pintinho chamado Uto, que, quando crescer, botará ovos de ouro.
Deus: Verbo Dar no pretérito plural. Indica a ação de Quem deu generosamente muito de Si para os outros.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Aonde Jogarão Minhas Cinzas?


Esta pergunta me veio da noticia de que as cinzas de Scotty, - aquele tripulante da Enterprise de Jornada nas Estrelas, lembram? – irão para o espaço agora em outubro. Na verdade são as cinzas de James Doohan, pois o corpo de Scotty já desapareceu há mais tempo junto com o seriado. Contudo, o que é verdade aqui não interessa. Para os fãs, Scotty foi para o espaço.
Mas voltando à terra e à minha pergunta, passou a me preocupar onde serei jogado. Eu mesmo, não meus personagens. Poderia ser no espaço também, já que minha mãe sempre disse que eu vivia no mundo-da-lua. Aliás, no espaço não se joga nada; larga-se, se lança, se solta. É até mais bonito. Porém, como o preço da dimitil-hidrazina (combustível de foguete) anda em alta, melhor não me iludir. Mesmo se fizesse uma poupança desde já, quem é que me assegura que minha família não vá ser convencida de que isto é uma excentricidade, um capricho em detrimento de tantas necessidades, etc.? Mesmo porque, quietinho numa caixinha, já não teria tanta força de argumentação. Pior fatalidade: no momento de ser solto no espaço, por um desses acidentes de percurso, a caixinha escapasse das mãos do ente querido escolhido para a missão – pois aquelas roupas de astronauta atrapalham – e eu vagasse pela vastidão do universo, preso dentro de uma caixinha, com meteoritos tirando fina, pra todo o sempre.
Pode ser no mar. Do mar sempre tive medo. Na praia, quando entro no mar, nunca passo da cintura. Aliás, se me virem com água pelo peito, corram a me socorrer, pois estarei tentando me matar. Com o gesto de minhas cinzas jogadas em alto mar, com o réquiem das gaivotas e do zumbido do vento ao fundo, estaria dizendo aos familiares e poucos amigos presentes em tão inviável cerimônia fúnebre: a morte sempre vence o medo. Mas isso, acho que também não vou querer. A maré acabaria por me trazer de volta à terra; à areia. Então as crianças da classe média fariam seus castelinhos com os agregados das minhas cinzas, construindo e desconstruindo. Estaria simultaneamente em dois castelos a guerrear contra mim mesmo. Se ao menos ficasse em uma dessas fortalezas arenosas... Mas já viu criança deixar um castelinho em pé? Com sorte, uma parte de mim poderia ficar em exposição numa bela sereia, escultura de areia, de algum artista de praia. Poético, mas improvável.
O mato também é outra opção. Adoro o mato. Mas nessas épocas de queimadas, seria bem provável que seria cremado reiteradas vezes até minhas cinzas perderem sua cor cinza original atingindo um negro final inaquarelável. O ator Raul Cortez foi jogado no campo, em seu sítio em Porto Feliz. Quem sabe, eu também possa repousar no pé de um jequitibá, uma paineira centenária, mesmo entre umas marias-sem-vergonhas, para escândalo de uns mais moralistas presentes ao cortejo. Aí, quando uma florzinha meio acinzentada brotasse alegre, entre as lilás, laranjas, vermelhas, brancas... Minha netinha gritaria: “olha mamãe, o vovô todo açanhado no matinho!”.
Num Rio? Pode ser, mas também vai acabar no mar e depois na terra... Não vamos retomar essa estória. Talvez me espalhar a esmo por aí, sobre a cidade de São Paulo, com um teco teco alugado. Mas causaria desgosto à minha família se, vazada a noticia de tal ritual, as pessoas aterrorizadas com essa garoa funesta, passariam a varrer e lavar com asco seus quintais e telhados. Fora a probabilidade ridícula de cair sobre cemitérios, cometendo então minha derradeira redundância, e de todas cometidas em vida, repito, a mais ridícula.
Poderá, porque não, eu ser depositado em um cinzeiro comum. Sem cerimônia, sem gesto, sem poesia, sem epitáfio, sem nada.
Essas idéias todas me preocupam, por isso vou pensar melhor, antes que eu tome uma decisão precipitada da qual venha a me arrepender.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Banheiro de Sebo



Sou freqüentador de sebos. Para meu alívio, tenho constatado se tratar de folclore essa estória que só velhos aposentados e saudosistas tem o costume. Tenho visto muitos jovens, com os mais diversos interesses, fazê-lo. O sebo é o tipo de um limbo, onde almas estão aguardando por alguma salvação e outras, embora ainda sobreviventes, amargam o espaço na prateleira da danação eterna. E quando você entra então, sente que todas estão sofrivelmente a esperar um resgate; uma lembrança.
Feito essa parca defesa, vamos ao assunto. Postergo para um tempo maior e de maior inspiração para me aprofundar. Sabendo que se aprofundar em alguns temas, é entrar nos recônditos onde os ácaros, mais bélicos se mostram.
Neste que estou freqüentando no momento, algo de estranho se passa comigo no campo fisiológico. Como se houvesse um tipo específico de ácaro que ao invés de atuar nas vias respiratórias, o fizesse nas vias intestinais. Cientistas o chamariam de ácagarus relaxantis. Ou, há uma energia especial vindo de literaturas técnicas do assunto, cuja força sobrepuja a outras influencias. Ou também, a grave influencia das muitas edições em que o conteúdo é o próprio objeto do assunto ao qual me refiro. Enfim, fica aí uma pesquisa a se concluir.
O fato é que da última vez em que me atacou tal sentimento, não resisti a ele. Com força tamanha, como a tração das máquinas locomotivas que separam queridos que partem dos que ficam, assim me vi desistir dos Machados, Clarices e tantas queridas almas. Digo que não resisti, pois desta feita tive que de humilhação me vestir e chamando o Sérgio – dono do sebo – pedir para usar o banheiro, sem prefácios, mas com muitos agradecimentos. Não daria para chegar ao escritório. Mesmo porque, nesses momentos agudos em que o mais inadiável e importante dos afazeres se torna fútil tarefa, a distância entre o ponto acidental e o ponto ideal deve ser considerada; e rapidamente. É nesses instantes que temos compreensão de conceitos da física: A menor distancia entre dois pontos é infinitamente maior que as curvas do intestino delgado. A unidade anos-luz de distancia, também é percebida na prática. Anus-luz, se houvesse tempo para trocadilhos e se rir não fosse tão perigoso nessas horas.
O sebo está num sobradinho, desses sem recuos laterais, apertadinho e uma vez dentro é difícil identificar os ambientes do que fora aquela casa. Livros por tudo que é canto, revestindo as paredes em prateleiras pingentes, pilhas de literaturas no chão, nas mesas, ficando sempre uma brechinha mínima para se transitar, tão mínima que permite a um ácaro atravessar correndo de uma pilha a outra sem ser pisado. O dono parece um camaleão amalgamado com as estampas cor de pó, e é preciso uma certa concentração para achá-lo quando se entra. Nos fundos, - aonde me ocorrem os primeiros sintomas -
no que parece uma pequena copa, estão as literaturas nacionais, amontoadas numa pia velha encostada em prateleiras de metal que só não estão oxidadas por não haver espaço para troca de oxigênio. Mais ao fundo uma entradinha que leva a um cubículo escuro, ao qual eu não chegava por puro receio. A fantasia de qual literatura encontraria ali me assombrava. Porém, havia a esperança de se tratar de um banheirinho e talvez então, não fosse mister passar pela humilhação a qual já me referi. Qual valente que por uma missão nobre derrota guardiões horripilantes, fui. Disfarçando, mas decidido. Engano. Se houvera uma latrina ali, agora estava soterrada por livros, revistas e gibis. Um Super-homem em frangalhos parecia me dizer: “seja homem”.
Num piscar de olhos estava no piso de cima. Corredorzinho estreito, também recheado de livros antigos, técnicos e tudo. Um foco nevoado de luz me indicava a porta aberta do paraíso. Um cãozinho que corre ao encontro do seu dono não seria mais ligeiro do que eu ao adentrar. Passados os primeiros segundos, foi que me pus a reparar naquela decoração. Uma maravilha. Livros e revistas amontoados ao redor da louça e no desativado boxe; e o melhor, ao alcance das mãos. A noção do unir o útil ao agradável jamais me fora tão clara. Aqueles que gostam de ler e mais ainda nessas horas, hão de fazer coro comigo e exaltar, ao imaginar, tão poético lugar.
Perdido de um, perdido de dez. Valho-me desse jargão do futebol para contribuir ao explicar que, configurada uma humilhação, o negócio é relaxar. Daria no mesmo, ficar dois ou vinte minutos. Decerto o proprietário até esquecer-se-ia da minha pessoa, e só quando a válvula de descarga fizesse a velha tubulação estremecer as paredes com livros escorada, então se lembraria, sem, contudo, fazer conta do tempo.
Também há a advertência de que o muito tempo em tal exercício, favorece a dilatação varicosa das veias anorretais – já que estou no andar dos técnicos. Ou, as hemorróidas. Não estou aqui a desprezar quem assim teme. Até mesmo promovo esse perigo à classe dos perigos prazerosos. Infantiliza seus pensamentos quem julga não haver força no prazer e de não ser seus longos braços quem nos estreita a tais perigos.
O esposo ou esposa que trai seu conjugue, o faz pelo prazer momentâneo, embora tenha consciência que aquilo vai detonar sua vida, pelo menos por um tempo bem maior. O sujeito que coça freneticamente sua frieira, o faz pelo prazer louco que aquilo lhe trás, e nem quer saber, embora saiba, que aquilo vai maltratar severamente seus dedos.
Salto desse trem de divagações, para dizer que continuo respeitando àquela advertência, ainda que, até hoje nunca sofrera a fragosa conseqüência.
Voltando ao meu embevecimento: ao alcance das mãos e os mais variados temas, sem catalogação alguma; alcancei um de artes plásticas. Capa dura, fotos descoloridas, artistas que nunca ouvira falar... Mas me auxiliavam com o estilo barroco, art nouveau... Puxei um que me atraiu pelo tamanho; anatomia. Tentei procurar como funciona um intestino, a celebrar o casamento da teoria com a prática. Deixei de lado. Direito civil... Técnico em Eletricidade; magnetizado foi meu pensamento à imagem daquelas caveiras nas cabines de alta tensão; casa-de-força, para leigos. História... Astrologia. Será que astros exercem influência em tudo? Pensei no pobre Plutão. Na mitologia grega, era o deus dos submundos. Agora um deus anão. Deveria arrancar a folha e colá-lo à parede daquele submundo, mas nem espaço na parede, nem coragem em mim havia. Peguei uma enciclopédia. Observem que o critério é dos maiores para os menores. Do geral para particular. Tentei mais uma vez, ser eu mesmo, pano de fundo aos estudos. Procurei uma palavra, que não sei se feia, técnica ou aristocrática, mas era a que meu pai empregava quando eu era menino: evacuar. Ajudariam muito se naqueles tempos dispuséssemos de gírias como, passar um fax; libertar a marmota; escorregar o moreno, entre outros. Por fim, era a grande chance de um destrinchamento do termo. Mas nada. Joguei a obra – à enciclopédia, me refiro. Passei a relembrar que quando moleque, traduzia a expressão como um ajuntamento coloquial de palavras; resumo de uma frase assim: “... e vá cuar, menino!”. Mais tarde, sabendo que “cuar” não era nada, e colegiando, achei que tinha a ver com vácuo. Um ato para deixar um vácuo interno. Quando comecei a ouvir as notícias das atrocidades da polícia no regime da ditadura, abandonei tudo que já havia pensado e julguei ter meu pai, um homem simples, mas campeão de palavras cruzadas, feito confusão com termos: evacuar era então, abandonar uma praça de guerra.
Bem, foi o que acabei fazendo. Peguei minhas compras e evacuei. Não necessariamente nesta ordem.

os números - o dossiê

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

os números

terça-feira, 3 de outubro de 2006

poema politicamente incorreto

Parafraseando M L King:
O que me assusta não é o escândalo dos políticos
mas o silêncio dos crentes.
A igreja por vezes se torna um lugar tão espiritual que não há lugar para crítica, denuncia, uma oraçãozinha sequer pedindo justiça... Que dirá um grito tipo "raça de víboras!". Em que páramos anda nosso carater profético da denuncia contundente? E pensar que estamos, isto sim, orando agradecendo a Deus pela liberdade que temos de culto. Ah, vidinha evangelical medíocre! Vamos continuar tendo muita liberdade enquanto não encomodarmos ninguém.

Bem, mas não é isso que queria trazer. Um dia o farei com mais precisão.
Estou pensando em um Poema que abordasse tal realidade, e a colher assinaturas (e grana também) para que publicássemos num jornal expressando como se incomodam, pelo menos esses que assinaram em baixo.

Vou me debruçar nisso.

enquanto isso vai aí uma poesia antiga.
beijos.
Wilson Tonioli

-o-

SE NÃO FOSSE O HÍFEN


Se não fosse o hífen,
guarda-chuva seria o fim dos alagamentos.
Um lugar que de tão grande, guarda chuva,
do que sobrasse de rios e lagoas,
e não só, substantivo comum nas garoas.

Se não fosse o hífen,
contra-ataque seria um estado de paz.
Um modo de ser de gente contra ataque,
de gente que luta para que se não lute,
e não a reação de responder o chute.

Se não fosse o hífen,
menino-de-rua seria só uma criança.
Alguém orgulhoso de ser de rua,
da cidade, de país, de lar...
E não o ser nu a desfilar.

Se não fosse o hífen,
palavra-chave seria só um ditado com “ch”...
E com mais uma ave, que não voa, a palavra chave.
Como todas, que sem se mover, são mortas,
e não segredo para se abrir caminhos e portas.

Se não fosse o hífen,
ponto-de-vista seria um lugar concorrido,
onde pessoas se juntam num bom ponto de vista,
para ver vales e ocasos...
E não a intransigência criando casos.

Se não fosse o hífen...
Cara-de-pau seria arte.
Carranca tirada do pau bruto, cara de pau.
Face que lá está e não se vê. Mágica...
E não a cara descarada. Cínica.


terça-feira, 26 de setembro de 2006

Assentamento

Um Tio saiu a procurar,
um grande A que pudesse cobrir,
mas sem o O que lhe desse o não,
inda que fosse numa só manhã.

A Crase é
a crise do acento,
no caso agudo,
apela à fé.

O circunflexo é a culminância
do Agudo à Crase;
vivem à beira do rio Quase,
sob o telhadinho da tolerância.

Wilson Tonioli

sábado, 23 de setembro de 2006

Tornarei-me um Ébrio

Sente-se um pouco irmão. Tome uma bebida; vamos conversar um pouco. O começo é chato... Depois piora, mas peço, não se levante; é necessário.
Sabemos muito bem, por informações ou por experiências próximas: a bebida alcoólica é a pior das drogas. Segundo recentes pesquisas, quase cinqüenta por cento das famílias brasileiras tem problemas com o alcoolismo. A maior parte dos acidentes de trânsito e outras tragédias, tem como causa direta ou indireta o alcoolismo. A nossa consciência já está embriagada desses índices e advertências. Assim, não lhe oferecerei mais nenhum trago disso.
É que me peguei pensando, o que seria de nós, para nossa diversão e quebra relaxante das rotinas, se não fossem os cômicos bêbados por aí. Já sei, pode o leitor estar julgando: “que oportunismo mais perverso!”. Dou razão; eu mesmo já me envergonhei de mim mesmo com tal pensamento. Sarcasmo mesmo, se rir dum desgraçado. Contudo, sem deboche. Senão, continuarei me defendendo: quem nunca se viu rindo diante de um bêbado, por algo que ele falou ou pela maneira como agiu, mesmo que esse riso tivesse sido bem contido? Quem é que não tem um episódio de bêbado pra contar e que também provoca risos nos ouvintes? Sim, todos temos, ainda que, a gente salvaguarde a compostura ética de um cristão, afirmando no final: “coitado... é triste ver um ser humano assim...”. Nossa postura, refrigerantemente farisaica, não nos salvará das surpresas com que a vida real, todos os dias, nos brinda.
Peço um pouco mais de paciência; já chegarei onde quero. Antes me permitam contar um, só um dos meus episódios, (confesso que tenho colecionado alguns. Um dia, talvez, publique um livro: “Meus Encontros com Bêbados”. Ou: “Bafos, Risos e Lições”. Alguma coisa assim) que é simples, mas me deu ressaca.
Estava entrando no trem da CPTM, ao mesmo tempo em que falava ao celular, por uma das portas que ficam junto à parede dos fundos, ou da frente, depende do sentido que vai a máquina, mas isso não importa. O vagão estava cheio, mas não de se espremer. Um homem, jovem, estava sentado no chão com as pernas dobradas, encostado nessa parede. Eu me posicionei bem à sua frente, mas a principio nem o percebi direito, pois, como já disse, estava em conversa. Talvez até tenha dado uma resvalada no seu pé, pois na posição em que estava, meio no meio do caminho...(um homem sentado ocupa maior área quadrada que um homem em pé). Desliguei o celular, logo percebendo que havia uma certa importunação no ar. O homem no chão estava perturbado com a posição em que eu estava, bem à sua frente, deixando-o a me olhar os joelhos. Bastou alguns segundos, para uma olhadela rápida nas pessoas ao redor. Impacientavam-se; ou com meu desligamento, comum a uma pessoa que fica falando ao celular, puxando a atenção de todos para uma conversinha insossa e ao mesmo tempo, dando razão às lamúrias de um pobre diabo. – esqueci de mencionar que estava este, completamente alcoolizado; às dez e meia da manhã, diga-se. Ou, era mesmo a irritação com aquele imprestável que tirava o sossego dos viajantes. Momento seguinte, e eu estava rindo da situação e com as palavras de protesto balbuciadas, acompanhadas de gestos descoordenados. Não tenho a pretensão que o leitor ache a mesma graça. Careceria de interpretação, mas se puder tentar... Ele dizia: “P.Q.P...o zidadão viga paradu bem agui!...ó qantu lugá aí...gassete...”. Confesso que veio a tentação de ficar um tantinho mais só para ouvir as injúrias; mas saí logo, para um lado mais vazio. Cessou a reclamação. Um rapaz me olhou franzindo a testa como dizendo: “a gente tem que agüentar cada uma, não é?”. Eu continuei sorrindo. Queria dizer-lhe, “isso foi bom...”, mas só ri. O sujeito apoiava a cabeça nas mãos, depois soltava, encostava na parede, de repente, de um salto, pôs-se em pé. Olhava para fora, parecia disfarçar que sabia qual era a estação a descer. Os olhos embotados de um brilho viciado. As pálpebras ao meio, como uma persiana travada ali, que num esforço, às vezes subia na tentativa de se recompor, como se os olhos fossem tudo na imagem, mas caía em seguida para o mesmo lugar. A cada abertura de porta, ele fazia gesto de que sairia, mas ficava. Nessas alturas, no entra e sai, ninguém mais o percebia. Os novos no vagão na verdade não conheciam o personagem. Seu espetáculo fora curtíssimo. Quem viu, viu. Agora jazia em pé encostado, mudo, às vezes uma respiração mais ofegante, só. Só uma compaixão profunda me veio, como enxaqueca pela graça que achei. O espetáculo, embora curto, teve todos os elementos de uma tragédia autêntica: ação, alguma comédia, um herói a se entregar para a sensação de liberdade dos demais...
Saiu enfim numa estação qualquer. Fiquei buscando, zanzando a cabeça entre as janelas para ver o rumo que tomaria. Sentou-se no banco de madeira no meio da plataforma, esperando o trem do noutro sentido...
Desculpem, se acabou meio triste, mas quero voltar para a alegria dos encontros com bêbados. Logo outro inquilino alugou-me a mente... Ou pela instantaneidade diria: invadiu meu imóvel pensamento. Pensei nas Escrituras que afirmam: “... não vos embriagueis com vinho, mas com o Espírito.”. Só então me dei conta, como por um clarão de um fogo interno, do quanto ando sóbrio. O quanto andamos sóbrios. Demais. É certo que em alguns momentos me sinto meio embriagado; mas só em alguns parcos momentos. Como agora, por exemplo, que vou escrevendo e sinto que não tenho pleno controle de meus sentidos. Algo me empurra, me desinibe, me relaxa... Como se soubesse e pensasse: “tudo bem, amanhã esquecerei tudo mesmo...”.
Mas anseio, oh, como anseio, ser um ébrio de verdade. Ser um sem-jeito; um perdido, sem-salvação, totalmente dominado por esse poder. Então andaria por aí afrontando e confrontando a sociedade, quebrando regras estabelecidas e ao mesmo tempo, fazendo as pessoas simples rirem, pensarem... O meu hálito, certamente, à alguns seria terrível e os afastaria, mas a outros, os entorpeceria de esperança e misericórdia... Sem rumo certo, caminharia pra qualquer direção, levado por um Vento forte, não sem sentido, mas totalmente se deixando levar. Talvez alguma instituição me internasse numa clínica de recuperação, afastada de tudo e todos, em algum sítio por aí, com muita disciplina e regras, com uma rotina de trabalhos, etc. Mas depois de passado algum tempo em abstinência forçada, inveterado e sem-salvação que fosse meu caso, eu pularia os muros, quebraria as grades, fugiria... Isso, uma, duas, três vezes, quantas fossem as internações. Não pela minhas próprias forças, mas pela força terrível da minha dependência à Química do Vinho do Espírito, com os efeitos de sua mensagem, de um Reino de outro Mundo, mas para se pregar aqui e já. Efeitos esses, avassaladores, terríveis, que não se pode conter, que quando dominam alguém, não há clínica que o recupere ou aprisione.
Contudo, vou repetir: – como um bêbado irritantemente repete as coisas - estamos todos sóbrios demais. Além do que, não faltam os que criticam os bêbados. Se estes patifes fazem os outros rirem; são meros palhaços. Se libertam dos rigores os cativos; são inconseqüentes. Se roubam muito do precioso tempo de trabalhadores; são marginais. Se passam muito tempo, ajudando amigos a se levantarem; são vagabundos... Compreensível, a embriagues traz muitos riscos. A gente pode acabar perdendo tudo, e é próprio do sóbrio alertar.
Perdoem se prolongo, mas é típico também dos bêbados: ser chato. No entanto, se chegastes até aqui, tenha paciência, já me vou... Quero insistir, ainda que, não totalmente alcoolizado: essa é a missão da minha vida; tornar-me um ébrio.
Agora sim, vou... - Já cheguei ao inadmissível de babar no teclado; só mais um parágrafo como saideira, e oferecer um brinde a essa minha esperança, e de muita gente sei. Vamos tomar um trago, sem medo. Depois mais um; e outro mais, e quem sabe, enchamos a cara, o coração, a alma... Até darmos as mãos e sairmos pro mundo.

sábado, 2 de setembro de 2006

Plutão