segunda-feira, 31 de março de 2008

A língua do p

Tem Pastor com P maiúsculo.
Tem pastor com p minúsculo;
e tem pastor com p ridículo.

O Primeiro é Pastor divino,
é Puro e Poderoso.

O segundo é pastor terreno,
é pobre pecador.

O terceiro é pastor terrível,
é podre e perdulário.

O Pastor divino perdoa.
O pastor terreno pondera.
O pastor terrível pune.

O Pastor que perdoa, promove.
O pastor que pondera, propõe.
O pastor que pune, poda...

O Pastor tem plena presciência.
O pastor tem plano e prudência.
O pastor tem pleito e pendência.

O Pastor é perfeito.
O pastor é projeto.
O pastor é pérfido.

Ele é Todo Poderoso.
Este é todo piedoso.
Aquele é todo perigoso...

Palavra.
Pregação.
Pres-unção.

Pai.
Pessoa.
Parasita.

Ponto-final.
Proposição.
Panos-quentes.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Universo no teu corpo



"...Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor..."


Taiguara, no show que fez no Anhembi (São Paulo) logo que voltou do exílio em 1978.

terça-feira, 25 de março de 2008

segunda-feira, 24 de março de 2008

quinta-feira, 20 de março de 2008

Do lugar do adversário



Havia motivo de festa naquela manhã. Apesar da gritaria, fanfarrices e deboches desvairados, a cidade permanecia surda a esse verdadeiro redemoinho de demônios concentrado ali. A rotina despontava juntamente com os primeiros raios de sol sobre as pedras que calçavam as ruas, que aos poucos perdiam o brilho do orvalho da madrugada. O dia prometia ser muito quente. A cidade preparava-se para o dia... Com um leve desassossego do que de costume. Soldados romanos, nada de costume, passavam pelas ruas estreitas que conduziam para fora da cidade, como que vistoriando a ordem. Uma criança, saindo de sua casa, corre acompanhando um soldado, mas logo é agarrada por sua mãe que olha a tropa que vem logo atrás. Ela pensa: o que armam esses brutos em véspera do nosso sábado? Os flagelos embora tão comuns, sempre seriam repugnantes e não havia como explicar tais espetáculos de vergonha às crianças.
Em outro lugar, demônios de todos os ministérios estavam avisados do grande acontecimento e em caravanas para lá se dirigiam. Lá, era um lugar como outro, mas como não seria jamais. E iam pervertendo e arruinando a todos que encontrassem, já por conta da grande vitória assegurada.
Os olhos de todas as forças obscuras do cosmos eram voltados para aquele relevo, árido, fora, mas próximo à cidade. Pessoas então, também começam transitar mais do que o normal. Caminhavam para lá. Lá, era um lugar dos espetáculos. Procuravam-se os melhores lugares; na terra ou nos ares. O indefectível desejo mórbido presente nos expectadores. Expectativa. Burburinho solene.
D1 está sentado. A posição, como não poderia deixar de ser, era privilegiada. Está quieto e não pára de pensar; os olhos, no centro de lá. Lembra-se como tudo começou... A morte, convidada especial, sentara-se ao seu lado.
- Desculpe-me, baixeza - interrompeu D2, seu primeiro ministro - está tudo sobre controle. Ele já foi julgado. Em breve, afinal, assumiremos. Judas nem foi tão importante... Ele mesmo se entregou.
D1 não quis dizer, mas pensou: - É isso que me intriga...
D3, D4 e D5 invadem a presença de D1 com gargalhadas escarninhas... - Esse Pilatos é mesmo de morte eim!? Lavar as mãos!... Que idéia! Só mesmo um político - zomba D3.
D4, como um chefe de torcida, instiga o coro: - Barrabás! Barrabás!...
Embriagado de motivação, D5 ironiza: - Vejam só o que estão fazendo com ele! Nem nós faríamos melhor!
D1 não consegue se envolver. Não ri. Só pensa... Só olha.
Percebendo mas não compreendendo a preocupação de D1, D2 retoma o diálogo e o clima sério: - baixeza, já mandei averiguar. Nenhum dos que andavam com ele estão por perto. Não representam ameaça alguma. Nem mesmo o pescador metido a rebelde... Já o negou várias vezes...
- Três! - Corrige gritando D1, transparecendo certo descontrole.
- É verdade! - Emenda D3, quando é duramente reprimido por D2:
- Eu já não disse que essa palavra é proibida em nosso reino?!
- Me perdoe - diz D3 constrangido.
- Ora, isso também não fazemos! Blasfêmia! Você será rebaixado! - Enfurece-se D2.
- D4 lembra: - Não nos percamos... Também adoro um desacordo, mas hoje é dia de festa senhores!
Enquanto isso, a milícia infernal encontra-se impaciente. Fora da presença de D1, todos só imaginam o que será o novo reino de trevas e caos eternos. E D1 só imagina o que pode dar errado...
Ele olha agora, no palco há três colunas de pinheiro oriental, cravadas no solo. A vítima, carregava uma haste e deitam-na sobre esta como se fosse travesseiro. Está banhada em suor e sangue, extenuada. Outras duas gritam e se debatem, alternando o foco de atenção da platéia. O horror é menos pela morte do que pelo morrer.
Afigura-se um quadro pintado por demônios e toda sorte de potestades. Está por um fio a esperança. De repente, um vermelho carmesim, mancha com força a tela; ao mesmo tempo em que um grito lancinante rompe em desespero. Êxtase para o mal. Entretanto, o grito e o sangue aspergido com violência fazem D1 se lembrar, sem saber por que, do dia em que um jovem chamado Isaque seria sacrificado pelo próprio pai.
- Estou profundamente perturbado - pensa - os gritos desse me lembram os gritos daquele jovem... Por que? Por que?
Num estalo, a resposta para uma inteligência superior aos demais séquitos.
- É isso! É isso! - Já em desespero, vocifera D1. Freneticamente irado, levanta-se do seu lugar; e nessa ira já sucumbem milhares de seres inferiores... Ele grita com seus imediatos, e esse grito faz imediatamente tudo se calar:
- Vocês não vêem?! É o pai que sacrifica o próprio filho como em Moriá. Isso será para o nosso fim e não para a nossa glória!
Sem entender muito bem, D2 dá ordens de tentar conter o sacrifício. Desestrutura-se o comando maligno. D3 também não compreende tal paradoxo – inteligências terrenas também não - de como pode haver vitória ante a humilhação, a dor, a morte... Mesmo assim arrisca acalmar D1:
- Lembre-se baixeza que o braço do pai do menino foi contido...
- Ora, seu estúpido - já fumegante D1 diz, sem mais paciência - o que nunca teve mesmo. Explica: - Só o Altíssimo poderia conter o braço enlouquecido da fé daquele pai naquele dia... Agora é o seu próprio braço! Não haverá outra vítima que o possa agradar. Se não o impedirmos será o nosso fim para sempre!
Trovões, vento forte, horizonte precocemente escurecido retratam de maneira visível a batalha invisível que se trava. Legiões inteiras, todas as hostes, desesperadas, ensandecidas, contra um único braço que desce... De poder e amor desce. Incontível...

Um sussurro ensurdecedor se ouve dos lábios do crucificado: - Está consumado.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Sobre o Ter e o Ser (2)

Acho tolice essa discussão sobre ter e ser. Aliás, quase já não há mais discussão: o importante é ser e não ter. Eis o veredicto. E isso é apregoado em todos os cantos, não mais como filosofia-de-porta-de-igreja apenas, mas como filosofia-de-dentro-da-igreja, filosofia-de-caixa-de-entrada-de-e-mail, filosofia-de-professor-universitário-da-puc-querendo-impressionar-na-última-aula-da-sexta-feira, filosofia-de-bar-cabeça, filosofia-de-convite-de-formatura, filosofia-de-editora-de-auto-ajuda, etc. Só ainda não é a filosofia-de-barraco-da-margem-do-tamanduateí, porque o menino que fuça o lixão ainda não foi doutrinado no que significa ser, muito menos ter. Só sabe que é um menino barrigudo porque tem uma barriga grande... A beleza de ser é tão feia também!
Eu não sou convicto das pregações nem tenho certeza de nada. Por isso fiz essas brincadeiras com as palavras aí em baixo.
Tudo bem, chamam de fuga, brincar com aquilo que não conseguimos lidar internamente... Que seja. Fugirei sempre em que encontrar as portas do cárcere do senso-comum abertas.
Voltando: é tolice pensar que alguém deve ser feliz, por exemplo. Como se tivesse nascido assim. Quem disse que o ser humano é feliz por natureza? Deveria então nascer gargalhando ao invés de chorando. Não sou terapeuta de feto, - nem de fato - mas será que ele não chora porque passa do estado de paz e não-medo para o irreversível estado de ansiedade e medo? Chora porque nunca mais será o mesmo...
Mas isso também é uma teoria. Minha teoria. Não posso provar sequer com meu testemunho, se fora assim mesmo que se deu comigo... Faz tanto tempo. E no meu caso ainda teria um agravante, pois além da fase embrionária que precede a fase fetal, vivi a fase fatal, - que sucede a fetal, se algum descuido ocorrer - dadas as circunstâncias da minha natividade. Mas isso é outro assunto.

Na questão do ser, o máximo que conseguimos é ser humano, e não pleno.
Mais uma proposição: o que veio a ser foi feito do que se veio a ter.
Seu pai teve a chance de conhecer uma mulher. Ela teve uma ótima impressão dele. Tiveram um relacionamento. Tiveram a coragem de se casar. Tiveram outro tipo de relacionamento, mais específico (veja, estou falando de nossos pais, por isso essa ordem dos fatos). Sua mãe passou a ter náuseas, logo, e por fim, teve você, este ser tentando ser você mesmo o tempo todo. - Tai outra discussão: dá pra ser outra coisa senão nós mesmos? Enfim, outro assunto também.
O importante, diz o consenso, é que você deve ser... Contudo, e antes de tudo, você precisa ter a consciência de que precisa ser.
Ser é chato e presunçoso. Ter é humano.
Ser é ambíguo. Ter é umbigo.
Ser é uma floresta densa e intransitável.
Ter é uma rua de terra.
Não que eu seja contra o ser. Querendo ou não eu sou.
É que as crises de ser são mais severas que a do ter. Se você está em crise por você não ter, dá-se um jeito ou mesmo conforma-se. Se você está em crise porque você não é, aí não há jeito e nem nunca você vai se conformar com isso.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Sobre o Ter e o Ser

Se você quer termômetro,
você quer um termo por metro.
Se você quer térmico,
você quer um macaquinho.
Se você quer terminar,
você quer enterrar bombas.
Se você quer ternamente,
você quer decorar.
Se você quer terapia.
você quer se lavar.
Se você quer tergal,
você não quer Betânia.
Se você quer terremoto,
você quer mudar de canal...

Se você quer sermão,
você cansou de ser pé.
Se você quer sertão,
você quer ser um grande...
Se você quer serviço,
você quer exuberância.
Se você quer servo,
você quer um filho do teu filho.
Se você quer servil,
você quer ser mau.
Se você quer serpente,
você quer pentear.
Se você quer serafim,
você quer desejar.
Se você quer Serafina,
você quer ser modelo.
Se você quer sereno,
você quer ser antiácido.
Se você quer seresta,
você não quer ser aquela...

Mas para ser, você precisa ter.
Vejamos:

Se você quer sermão,
você precisa terapia.
Se você quer serviço,
você precisa termômetro.
Se você quer sereno,
você precisa ternamente.
Se você quer serafim,
você precisa terremoto.
Se você quer seresta,
você precisa tergal.

Ou seria o contrário?
Se você quer ter, você precisa ser:

Se você quer térmico,
você precisa sertão.
Se você quer terapia,
você precisa sermão.
Se você quer termômetro,
você precisa sereno.
Se você quer terminar,
você precisa serafim.

terça-feira, 11 de março de 2008

segunda-feira, 10 de março de 2008

domingo, 9 de março de 2008

sábado, 8 de março de 2008

quinta-feira, 6 de março de 2008

segunda-feira, 3 de março de 2008

Igreja vã gélica


Sua liturgia não urge mais.
Seus p-atores iludem a platéia
e hino-portuna é sua música.
Seu sermão deixou de ser mão.
Sua mensagem é vã gelho
e em suas orações
o sujeito vai à frente do Verbo.
Em seus cálculos
o dízimo múltiplo comum
determina o x do cristão.
Confundistes:
“Amar o próximo como a si mesmo...”
com “amar a si mesmo, comer o próximo.”
Sua palavra já não lavra nada.
Seus jejuns alimentam egos
e seu criador cria dor...
Sua pregação não proclama o Reino;
sua pregação reclama o rei na barriga...
Já não te crêem crente.