terça-feira, 26 de setembro de 2006

Assentamento

Um Tio saiu a procurar,
um grande A que pudesse cobrir,
mas sem o O que lhe desse o não,
inda que fosse numa só manhã.

A Crase é
a crise do acento,
no caso agudo,
apela à fé.

O circunflexo é a culminância
do Agudo à Crase;
vivem à beira do rio Quase,
sob o telhadinho da tolerância.

Wilson Tonioli

sábado, 23 de setembro de 2006

Tornarei-me um Ébrio

Sente-se um pouco irmão. Tome uma bebida; vamos conversar um pouco. O começo é chato... Depois piora, mas peço, não se levante; é necessário.
Sabemos muito bem, por informações ou por experiências próximas: a bebida alcoólica é a pior das drogas. Segundo recentes pesquisas, quase cinqüenta por cento das famílias brasileiras tem problemas com o alcoolismo. A maior parte dos acidentes de trânsito e outras tragédias, tem como causa direta ou indireta o alcoolismo. A nossa consciência já está embriagada desses índices e advertências. Assim, não lhe oferecerei mais nenhum trago disso.
É que me peguei pensando, o que seria de nós, para nossa diversão e quebra relaxante das rotinas, se não fossem os cômicos bêbados por aí. Já sei, pode o leitor estar julgando: “que oportunismo mais perverso!”. Dou razão; eu mesmo já me envergonhei de mim mesmo com tal pensamento. Sarcasmo mesmo, se rir dum desgraçado. Contudo, sem deboche. Senão, continuarei me defendendo: quem nunca se viu rindo diante de um bêbado, por algo que ele falou ou pela maneira como agiu, mesmo que esse riso tivesse sido bem contido? Quem é que não tem um episódio de bêbado pra contar e que também provoca risos nos ouvintes? Sim, todos temos, ainda que, a gente salvaguarde a compostura ética de um cristão, afirmando no final: “coitado... é triste ver um ser humano assim...”. Nossa postura, refrigerantemente farisaica, não nos salvará das surpresas com que a vida real, todos os dias, nos brinda.
Peço um pouco mais de paciência; já chegarei onde quero. Antes me permitam contar um, só um dos meus episódios, (confesso que tenho colecionado alguns. Um dia, talvez, publique um livro: “Meus Encontros com Bêbados”. Ou: “Bafos, Risos e Lições”. Alguma coisa assim) que é simples, mas me deu ressaca.
Estava entrando no trem da CPTM, ao mesmo tempo em que falava ao celular, por uma das portas que ficam junto à parede dos fundos, ou da frente, depende do sentido que vai a máquina, mas isso não importa. O vagão estava cheio, mas não de se espremer. Um homem, jovem, estava sentado no chão com as pernas dobradas, encostado nessa parede. Eu me posicionei bem à sua frente, mas a principio nem o percebi direito, pois, como já disse, estava em conversa. Talvez até tenha dado uma resvalada no seu pé, pois na posição em que estava, meio no meio do caminho...(um homem sentado ocupa maior área quadrada que um homem em pé). Desliguei o celular, logo percebendo que havia uma certa importunação no ar. O homem no chão estava perturbado com a posição em que eu estava, bem à sua frente, deixando-o a me olhar os joelhos. Bastou alguns segundos, para uma olhadela rápida nas pessoas ao redor. Impacientavam-se; ou com meu desligamento, comum a uma pessoa que fica falando ao celular, puxando a atenção de todos para uma conversinha insossa e ao mesmo tempo, dando razão às lamúrias de um pobre diabo. – esqueci de mencionar que estava este, completamente alcoolizado; às dez e meia da manhã, diga-se. Ou, era mesmo a irritação com aquele imprestável que tirava o sossego dos viajantes. Momento seguinte, e eu estava rindo da situação e com as palavras de protesto balbuciadas, acompanhadas de gestos descoordenados. Não tenho a pretensão que o leitor ache a mesma graça. Careceria de interpretação, mas se puder tentar... Ele dizia: “P.Q.P...o zidadão viga paradu bem agui!...ó qantu lugá aí...gassete...”. Confesso que veio a tentação de ficar um tantinho mais só para ouvir as injúrias; mas saí logo, para um lado mais vazio. Cessou a reclamação. Um rapaz me olhou franzindo a testa como dizendo: “a gente tem que agüentar cada uma, não é?”. Eu continuei sorrindo. Queria dizer-lhe, “isso foi bom...”, mas só ri. O sujeito apoiava a cabeça nas mãos, depois soltava, encostava na parede, de repente, de um salto, pôs-se em pé. Olhava para fora, parecia disfarçar que sabia qual era a estação a descer. Os olhos embotados de um brilho viciado. As pálpebras ao meio, como uma persiana travada ali, que num esforço, às vezes subia na tentativa de se recompor, como se os olhos fossem tudo na imagem, mas caía em seguida para o mesmo lugar. A cada abertura de porta, ele fazia gesto de que sairia, mas ficava. Nessas alturas, no entra e sai, ninguém mais o percebia. Os novos no vagão na verdade não conheciam o personagem. Seu espetáculo fora curtíssimo. Quem viu, viu. Agora jazia em pé encostado, mudo, às vezes uma respiração mais ofegante, só. Só uma compaixão profunda me veio, como enxaqueca pela graça que achei. O espetáculo, embora curto, teve todos os elementos de uma tragédia autêntica: ação, alguma comédia, um herói a se entregar para a sensação de liberdade dos demais...
Saiu enfim numa estação qualquer. Fiquei buscando, zanzando a cabeça entre as janelas para ver o rumo que tomaria. Sentou-se no banco de madeira no meio da plataforma, esperando o trem do noutro sentido...
Desculpem, se acabou meio triste, mas quero voltar para a alegria dos encontros com bêbados. Logo outro inquilino alugou-me a mente... Ou pela instantaneidade diria: invadiu meu imóvel pensamento. Pensei nas Escrituras que afirmam: “... não vos embriagueis com vinho, mas com o Espírito.”. Só então me dei conta, como por um clarão de um fogo interno, do quanto ando sóbrio. O quanto andamos sóbrios. Demais. É certo que em alguns momentos me sinto meio embriagado; mas só em alguns parcos momentos. Como agora, por exemplo, que vou escrevendo e sinto que não tenho pleno controle de meus sentidos. Algo me empurra, me desinibe, me relaxa... Como se soubesse e pensasse: “tudo bem, amanhã esquecerei tudo mesmo...”.
Mas anseio, oh, como anseio, ser um ébrio de verdade. Ser um sem-jeito; um perdido, sem-salvação, totalmente dominado por esse poder. Então andaria por aí afrontando e confrontando a sociedade, quebrando regras estabelecidas e ao mesmo tempo, fazendo as pessoas simples rirem, pensarem... O meu hálito, certamente, à alguns seria terrível e os afastaria, mas a outros, os entorpeceria de esperança e misericórdia... Sem rumo certo, caminharia pra qualquer direção, levado por um Vento forte, não sem sentido, mas totalmente se deixando levar. Talvez alguma instituição me internasse numa clínica de recuperação, afastada de tudo e todos, em algum sítio por aí, com muita disciplina e regras, com uma rotina de trabalhos, etc. Mas depois de passado algum tempo em abstinência forçada, inveterado e sem-salvação que fosse meu caso, eu pularia os muros, quebraria as grades, fugiria... Isso, uma, duas, três vezes, quantas fossem as internações. Não pela minhas próprias forças, mas pela força terrível da minha dependência à Química do Vinho do Espírito, com os efeitos de sua mensagem, de um Reino de outro Mundo, mas para se pregar aqui e já. Efeitos esses, avassaladores, terríveis, que não se pode conter, que quando dominam alguém, não há clínica que o recupere ou aprisione.
Contudo, vou repetir: – como um bêbado irritantemente repete as coisas - estamos todos sóbrios demais. Além do que, não faltam os que criticam os bêbados. Se estes patifes fazem os outros rirem; são meros palhaços. Se libertam dos rigores os cativos; são inconseqüentes. Se roubam muito do precioso tempo de trabalhadores; são marginais. Se passam muito tempo, ajudando amigos a se levantarem; são vagabundos... Compreensível, a embriagues traz muitos riscos. A gente pode acabar perdendo tudo, e é próprio do sóbrio alertar.
Perdoem se prolongo, mas é típico também dos bêbados: ser chato. No entanto, se chegastes até aqui, tenha paciência, já me vou... Quero insistir, ainda que, não totalmente alcoolizado: essa é a missão da minha vida; tornar-me um ébrio.
Agora sim, vou... - Já cheguei ao inadmissível de babar no teclado; só mais um parágrafo como saideira, e oferecer um brinde a essa minha esperança, e de muita gente sei. Vamos tomar um trago, sem medo. Depois mais um; e outro mais, e quem sabe, enchamos a cara, o coração, a alma... Até darmos as mãos e sairmos pro mundo.

sábado, 2 de setembro de 2006